Feminismo é sobre sair da zona de conforto (Guest Post)

Saiba por quê:

A partir da vivência, aprendi que minha vida não fazia sentido. Que era uma filha indesejada. Que a diferença biológica me inferiorizava. Que meu aparato intelectual era inferior. Que eu não passava de uma mentirosa, quando aprendi a mentir pra burlar a tortura psicológica pela qual passava (e que ainda me atormenta). Estudei em ambientes extremamente hostis pruma pessoa como eu que sempre mostrou não querer se adaptar, ainda que por pressão seguisse padrões (que me perseguem bem ou mal). O jogo do ego existe mesmo entre crianças pequenas, em disputas idiotas em que meninas aprendem a competir entre si e meninos aprendem a se sobrepor pela força física. Cheguei ao nível de achar que os homens estavam bem intencionados em acabar com o machismo. Crescer apanhando, metaforicamente ou não, deixa marcas. E o feminismo fala sobre essas marcas. Fala sobre você tocar nessas feridas. Todo o sofrimento de uma mulher, direta ou indiretamente, se relaciona com o machismo. Se minha vó espancou a vida inteira minha mãe, é porque o pai dela a maltratou muito. Se minha mãe me violentou psico ou fisicamente, é porque minha vó reproduziu essa violência, ao lado do marido, em seguida veio meu pai, que deu conta de dizer pra ela que a culpa era dela quando ficou grávida, quando o sexo é feito por duas pessoas. Porém, a culpa sempre cai sobre a vítima. Porque a vítima é a parte mais fraca da relação social. E o jeito que minha mãe recebeu a maternidade, que é uma das formas de dominação masculina, vem disso. E é um ciclo de agressões que mulheres aprendem. Mulheres não aprendem a se comportar de outra maneira, nem homens. Mulheres não sabem não ser violentas, muitas vezes, porque não aprenderam a se comportar de outra maneira. E o feminismo é sobre isso também. Aprendemos a colocar mulheres na boca dos leões em nome de aprovação masculina. Aprendemos a julgá-las através da circunscrição de suas sexualidades. Aprendemos que elas ocupam nossos lugares ao lado dos homens. Isso não é culpa nossa. Como para cada ação existe uma ação, quando agimos de forma violenta, somos repreendidas por isso. O que eu quero dizer é que a desunião das mulheres se dá por mágoa, se dá por não conseguir ultrapassar esses momentos traumáticos. Feminismo é sobre nós, sobre como nos tratamos, sobre o quanto conseguimos nos ver como uma classe unida, sobre o quanto conseguimos nos livrar dos julgamentos patriarcais. Sobre amar menos os homens, amar pouco, não amar. Amar o menos possível, e aprender a amar a nós mesmas e a nossas irmãs. É respeitar a lésbica, a gorda, e peluda. Não é dizer que o feminismo não estimula mulheres a serem lésbicas, gordas e peludas. Isso é dizer que concordamos com o padrão reducionista sobre nossos corpos. É questionar toda e qualquer relação patriarcal, refletir sobre heterossexualidade sim. Por isso feminismo é coisa séria. Feminismo é revolução, revolução é dolorido, envolve tocar nas feridas traumáticas. Aquele abuso sexual tácito que você naturalizou. Aquela forma violenta de se referir a alguma mulher pra agradar algum homem. A busca de uma mulher por aprovação numa sociedade que a odeia é sobre isso. Sobre deixarmos de achar que dependemos. Não somos dependentes. O opressor precisa de nós. Depende da opressão, do estupro, da guerra, do sistema monetário, pra continuar enquanto classe dominante. Por isso devemos nosso sangue às lésbicas, e às feministas lésbicas, em especial. Feminismo significa resistência, significa sim ir à raiz do problema. O status quo tem medo do extremismo. No entanto eu duvido que a Revolução Francesa tivesse acontecido caso ninguém não tivesse cortado a cabeça do rei, não tivesse provocado a revolta das massas, ainda que pra tirar proveito disso. Está na hora de enxergarmos que o rei está nu. Está mais do que na hora de pararmos de chamar Solanas de louca. Está na hora de revidar. Isso é sobre sangue, sobre lágrimas, sobre autoflagelação pra conseguir seguir em frente. Sobre pensamentos de suicídio, já que nenhum espaço é espaço para nós. É sobre ser extensão do corpo de outrem. Posse dele. É sobre deixar de ser coisa. Animalizadas, no sentido especista e doentio da coisa. No sentido cruel da coisa. É sobre deixar de dar pra macho de quatro achando que isso é emponderamento e liberdade. É sobre sair da zona de conforto. É sobre sentir vergonha de ser uma pessoa violenta com quem sofre dos mesmos males que você. É sobre amar as semelhantes. É sobre sentir vergonha sim. É sobre enfiar o dedo na podridão da misoginia internalizada. É sobre ver que homens infectam as criações dos filhos. Feminismo não é uma brincadeira. É uma autorreflexão profunda sobre si e sobre a estrutura. O quanto meu físico e meu psicológico não são resultado das vivências que a estrutura me impôs? Se eu não estivesse ali, estaria onde? Provavelmente embaixo de uma ponte sendo estuprada por mendigo, ou num tráfico infantil, ou num prostíbulo cheio de menores? Mutiladas, arrasadas. O radicalismo assusta, viver de extremos assusta. Não posso ver nada mais extremo do que a natureza do machismo. Dizer que ir à raiz disso, combater isso em todas as instâncias é extremismo chega a ser ofensivo. As estruturas sociais precisam mudar pra que não dependamos mais da autodestruição já que não aprendemos a viver de outra maneira senão destruídas. Sobre deixarmos de achar natural ser hostil. Aprendemos a ser hostis pra sobreviver. No entanto, o comportamento hostil com iguais deve terminar. E isso não é fácil, não estou dizendo que é. Isso é difícil pra cada uma de nós. A misoginia internalizada está em nós em diferentes níveis, de diferentes formas. Cada uma tem uma relação diferente com o machismo em níveis diferentes de consciência sobre síndrome de estocolmo. Se dar conta da coação tácita de uma relação patriarcal qualquer exige vontade de fazer a ferida putrefata sangrar.

“Eu tô muito triste porque me dei conta do tanto que fui violenta com pessoas que não tiveram culpa, sabe? De tudo o que eu vivi. Eu me tornei uma coisa muito violenta. E hostil. E tenho vergonha disso. E não tenho, sinto que não tenho com quem desabafar sobre isso. Porque é muito ruim você reproduzir violência contra quem não tem nada a ver com o seu sofrimento. E aí, você faz outras pessoas sofrerem porque você tá destruída. E logo você se torna uma pessoa dependente de destruição.”

“Marxismo ensina que exploração e degradação de alguma maneira produzem resistência e revolução. Veio sendo difícil responder por quê. O que viemos aprendendo da experiência das mulheres com a sexualidade é de que a exploração e degradação produzem grata cumplicidade no intercâmbio de sobrevivência. Elas produzem auto-abominação ao ponto da extinção do Eu [self], e é o respeito pelo Eu que faz a resistência concebível”
Catharine A. MacKinnon, Feminism Unmodified: Discourses on Life and Law

Texto de autoria de Mariana Ney Prado.

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Individualismo

Acordei numa segunda num lugar chamado Capitalismo. 
Percebi que me exploravam, decidi ser muito rica e resolver a minha vida.

Acordei numa terça num lugar chamado Racismo.
Percebi que me destratavam, decidi ser branca e resolver a minha vida.

Acordei numa quarta num lugar chamado Padrão de Beleza. 
Percebi que nem me olhavam, decidi ser linda e resolver a minha vida.

Acordei numa quinta num lugar chamado Heterocentrismo.
Percebi que não gozava, decidi me assumir lésbica e resolver a minha vida.

Acordei numa sexta num lugar chamado Gênero. 
Percebi que me estupravam, decidi parecer homem e resolver a minha vida.

Acordei num sábado num lugar chamado Falocentrismo. 
Percebi que não tinha voz, decidi implantar um pênis e resolver a minha vida.

Foi só no domingo, após ainda ser silenciada e invisibilizada, que me revelaram enfim o nome daquele local. 
Rasguei todos meus livros políticos, peguei o meu machado e virei feminista radical.

Sobre Disparidade Salarial – Não é mero acaso.

Você já reparou que antes da inserção das mulheres no mercado de trabalho, homens pobres (nossos avós) conseguiam manter uma família de 8, 10, 12 filhos? E não era incomum os homens se darem ao luxo de manter duas famílias (sem que uma soubesse da outra, claro). Quando a mulher vai finalmente para o mercado de trabalho, para as universidades, se gradua e etc, os salários caem, mantendo, claro, os maiores salários e melhores cargos para os homens.
Nada disso é um mero acaso do capitalismo, mas mais uma forma ardilosa de manter as mulheres dependentes dos homens. Se a mulher tem poder aquisitivo, conforme a constituição prevê, para ter moradia, alimentação, saúde e lazer asseguradas, ela dificilmente vai buscar os homens, e consequentemente não vai se prender a crianças. Esta tática de disparidade salarial e inflação é chave para fazer as mulheres buscarem desesperadamente casamentos, o que as colocam em relacionamentos abusivos de forma cega. Claro que não é apenas isso, mas estes fatores políticos garantem que toda a cultura da profissão-esposa funcione.
Nada disso é mero acaso, mas há um agravante: nossa classe, com essa tática (disparidade salarial e inflação), acaba não sendo remunerada de nenhuma forma. Entenda que o trabalho doméstico é um trabalho chave para a economia. Ele sempre existiu e sempre foi importante como base da economia. A mulher continua sendo explorada em casa, trabalhando sozinha pelo homem e pelos filhos. E não é remunerada por isso. É um trabalho sem folga, sem férias. Até após a aposentadoria ele permanece e ela é uma eterna mucama da sociedade, criando inclusive os netos abandonados pelos seus genros. Sendo assim, a inserção do mercado de trabalho, uma importante luta feminista de empoderamento da mulher visando sua autonomia, foi usada a favor dos homens para alavancar a economia dos países sem que a mulher receba remuneração integral pela jornada dupla ou tripla.
Ela continua dependente de um amparo econômico para sair da casa de seus pais e continua precisando de uma vida a dois para sobreviver. Ela continua sendo explorada e sendo a base da economia. Ela continua sendo vista e responsabilizada pela sociedade, pela mídia (propagandas de limpeza são voltadas para mulheres) e pelo Estado pelo trabalho doméstico e cuidados com as crianças.
Nada disso é por acaso e tudo isso te mantém cativa, desesperada e sujeita a abusos e desprezo dos homens. 

A visão da mulher negra no feminismo

Ser negra e pobre é conhecer a face crua dos homens, uma face oculta a muitas mulheres, mas não a nós. Até as cantadas de rua sobre a gente são mais ultrajantes. A tentativa de nos prostituir já na infância é maior pois a negra é oficialmente a mulher feita para a objetificação sexual. Principalmente porque, por não sermos consideradas bonitas pela sociedade, a objetificação sexual é considerada uma cortesia. “Agradeça que ainda quero te comer”.
O menor salário do mundo é da mulher negra. 
As maiores vítimas de violência doméstica são as negras. 
As mulheres mais abandonadas após a gravidez são as negras. 
E os filhos mais abandonados por homens (brancos e negros ) são os de etnia negra. 
Nossos olhos são apurados, vemos o que as brancas e mulheres de classe média não veem. 
Quando entrei no feminismo liberal não me agradei com o discurso. Sabia que era soft, turvado pela visão da classe média. Fui expulsa de vários grupos e páginas por discordar de discursos que eu julgava não contemplar a realidade da maioria das mulheres no mundo, que são as marginalizadas. Não vi interesses profundos por mudanças. Vi muita colonização masculina e espaço para homens.
E quando eu achei que a negra seria prioridade, inventaram uma preocupação com machos que sofrem por não poderem ser vistos como mulheres. Como se ser vista como mulher fosse um privilégio. Vi os machos se dizendo lésbicos e xingando lésbicas que não queriam o pênis deles, os pênis lésbicos. A negra nunca foi prioridade, as mulheres da periferia nunca foram. 
E eu conheço esse discurso de “uma luta não anula a outra”, e não engulo ele pois sempre foi usado quando a classe média queria justificar todos os seus esforços e recursos voltados unicamente para os seus pets

Eu conheço esse discurso, eu conheço o descaso, eu conheço a face dos homens, a face dos seus homens. E se cada negra da periferia se inserisse na prática feminista, ela seria radical de cara. Porque a gente conhece essa face do homem que não ri pra gente, a face do desprezo e estupro. Desde criancinhas. 

Esse texto, no entanto, não tem como objetivo final atacar ou culpabilizar mulheres brancas pois eu sei que a nossa opressão começou muito antes do mercantilismo, muito antes do homem negro saber da existência do homem branco (ou da branca). E sei que a mesma opressão se dava sobre as brancas, as indígenas, as indianas, as orientais, as de outras etnias e tribos. É uma opressão antiga, que independe da existência do capitalismo, ou comunismo, que independe da existência do conceito de raça, ou da equidade racial. E é contra essa opressão que me manifesto, e por essa luta que me uno a todas as mulheres, pois sei que homem nenhum vai um dia me ver como igual, não importa se ele é da mesma classe, nacionalidade, gênero ou etnia que eu. A minha luta é contra a raíz das nossas opressões, a minha luta é contra o patriarcado. E minha meta é libertar as mulheres de todas as etnias, pois todas são cativas da misoginia, ainda que umas mais que as outras, e eu não tolero e não acho privilégio nem mesmo a mais leve das misoginias. 

Carta aberta às Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador (e uma reflexão sobre os rumos de certa militância feminista no Brasil)

 Pensei bem antes de escrever esse texto, pela dificuldade que seria transmitir em palavras o tom certo do que pretendo expressar. Mas ao perceber o desconforto em tantas companheiras, percebi a necessidade e urgência desse esforço. Me movo aqui com profunda sororidade, mas sem abrir mão do senso crítico, ciente de que luta política, também no feminismo, deve-se fazer a partir do diálogo e do embate franco de ideias.

 Vou relatar fatos e apresentar imagens não com a intenção de deslegitimar essas organizações, mas de propor uma reflexão sobre os rumos de nossa militância, com uma aposta ao mesmo tempo esperançosa e incrédula de que desta vez não serei silenciada.

 Esse texto parte de um desconforto gerado pela publicidade feita nas Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador, e também algumas consequências que tiveram. Como sempre, essa publicidade é também um reflexo da militância que está sendo feita e é principalmente isso que me interessa aqui.

 A marcha de Curitiba apresentou duas imagens que causaram polêmica. Na primeira, duas figuras que na nossa sociedade são lidas como figuras masculinas, em corpos padronizados de acordo com a noção de beleza imposta pela mídia, aparecem em um ato de caráter sexual com a frase: “oCUpe na Marcha das Vadias”. Em outro, duas figuras lidas como mulheres, de corpos também padronizados, em posição sexual.

 marcha curitiba

 Eu acompanhei e participei da discussão que houve na página do facebook da Marcha, onde as imagens foram divulgadas. As críticas que surgiram, de feministas de diferentes correntes, poderiam ser resumidas do seguinte modo: 1) o que a imagem das figuras masculinas tem a ver com uma Marcha que se pretende feminista? Desde quando a pauta da homossexualidade masculina (ou de pessoas lidas e identificadas como homens) é prioridade para o movimento feminista? Considerando que o movimento LGBT – conhecido por muitos militantes como GGGG, devido ao domínio do protagonismo dos homens gays – já tem seus próprios espaços de militância, qual a necessidade (e quais as consequências) de também dentro do movimento feminista trazer essas pautas como prioritárias? 2) várias mulheres lésbicas foram à página dizer que estavam muito desconfortáveis com a imagem das figuras femininas, que na leitura delas em nada se diferenciava da representação desrespeitosa de fetichização e objetificação da sexualidade lesbiana, tão comuns na publicidade e na mídia. 3) devido a ambas imagens, surgiu o questionamento: o quão revolucionário é representar corpos padronizados, em posições sexuais, em uma sociedade hipersexualidade e objetificadora como a nossa, dominada por imagens pornográficas que são produzidas por homens? Em uma marcha que surgiu devido à violência sexual contra a mulher e à culpabilização da vítima, quais as consequências de transformar a ideia de liberdade sexual, deturpada pela cultura da pornografia e padronização de corpos, como o centro do debate?

 marchacuritiba

 Eu não estaria escrevendo esse texto se, diante de diversas críticas respeitosas, todos os comentários críticos não tivessem sido apagados, com a justificativa de que alguns (pouquíssimos) eram violentos. Também não estaria escrevendo se, diante da evidente postura de silenciamento (uma das moderadoras da página ironizou dizendo “que ia apagar comentários sim, e se alguém reclamar ia apagar mais”), em vez de fazer uma nota de retratação, a organização fez uma nota de “esclarecimento” (ainda disponível no facebook), na qual não responde a muitas das críticas feitas e não assume a responsabilidade pelo silenciamento praticado em um espaço no qual se espera abertura ao diálogo.

 Com isso, vamos para a imagem publicitária da Marcha das Vadias de Salvador. Nela, a foto de uma moça trans*, segurando uma faca e uma chave de fenda, é acompanhada dos dizeres: “combate a cis+sexismos, por todos os meios necessários”. Aqui eu peço honestidade, pois sem isso nem vale a pena começar o debate: qualquer pessoa que acompanha a militância feminista feita hoje na internet (e, cada vez mais, também fora dela), assim como qualquer pessoa que acompanhou as entrelinhas da polêmica na Marcha das Vadias de Curitiba, sabe que hoje se desenrola uma “guerra” entre as feministas radicais e as pessoas transfeministas/transativistas. Dado esse contexto de tensão entre essas duas correntes com visões antagônicas sobre gênero e prática política, várias feministas, que declaradamente não aceitam a noção de “cis” (sobre algumas razões para isso, leia aqui), afirmaram estar desconfortáveis com a imagem, pois parecia ser uma ameaça também a mulheres, afinal, dentro dessa noção de cissexismo, tanto homens como mulheres “cis” são opressores em potencial de pessoas trans*. Nesse sentido, acredito que seria uma ingenuidade muito grande dizer que essa imagem, com esses dizeres, não seria dirigida também a mulheres “cis”. E, ainda que a intenção não fosse essa, o contexto deixa claro que há motivos para muitas mulheres se sentirem atacadas e ameaçadas por essa imagem.

marcha salvadorr

 Não pretendo me ater a detalhes dos argumentos que surgiram, não gosto de ativismo pautado em ataque pessoal, prints e exposição de cunho personalista. Mas propondo uma reflexão mais ampla sobre as consequências que esse tipo de militância tem na prática, gostaria de apresentar aqui alguns contrapontos e como eu entendo a ideologia por trás da argumentação típica desse tipo de ativismo.

 1) “É importante trazer a pauta da liberdade sexual para a Marcha das vadias!”.

Esse é um ponto extremamente complicado da militância feminista, que precisaria ser explorado mais amplamente. Mas resumindo ao máximo: sem dúvida a questão da liberdade sexual e autonomia sobre o próprio corpo é uma pauta feminista importantíssima. Porém, o que vemos hoje é uma confusão, gerada a partir da noção de “liberdade” de acordo com ideias liberais, que não permite diferenciar entre liberdade sexual e mera repetição de objetificação do corpo e da sexualidade de mulheres. Como coloquei acima, não há nada de revolucionário em exercer e defender uma sexualidade nos exatos moldes impostos pelo patriarcado, em pleno acordo com a milionária indústria pornográfica e publicitária.

Cada vez mais, o feminismo tem sido levado a confundir libertação sexual com hipersexualização da mulher, sem perceber a ligação direta entre essa objeficação dos nossos corpos e a violência sexual patriarcal. Ao mesmo tempo, quem ousa questionar essa tendência, é taxada de “moralista”, “assexuada” ou “intransigente”, como se não fosse permitido pensar criticamente quando se trata do âmbito das escolhas pessoais. O antídoto para essa falácia liberal as feministas radicais já nos ensinaram há tempos: o pessoal é político. Para quem tem interesse no assunto, recomendo fortemente a leitura:   http://www.catarticos.com.br/doce/liberacao-sexual-vs-novas-formas-de-dominacao/

 2) “Mas eu sou lésbica e não me senti ofendida com a imagem”; “Mas eu sou cis, reconheço meus privilégios e não me senti ameaçada com a imagem”.

Todas as afirmações desse tipo têm algo em comum: novamente a ideologia liberal de que somos meros indivíduos fazendo escolhas e que, se alguma pessoa gosta de alguma coisa ou não se sente ofendida por aquela coisa, esse é argumento suficiente para justificar aquela ação e encerrar o debate. Não por coincidência, isso me lembra muito o que dizem os homens que insistem em “mexer” com as mulheres na rua, pois “tem mulher que gosta”.

Está mais do que na hora de perceber que, sobretudo quando se trata de política, uma imagem ou uma estratégia de militância não é uma mera questão pessoal que deve me agradar ou contemplar enquanto indivíduo, mas sim deve levar em conta estruturas sociais amplas, incluindo quem eu pretendo representar como categoria ou classe e a quem meu discurso se dirige, e como esse público alvo pode receber minha ação, assim como outros setores da sociedade, com vistas a pensar nas consequências da estratégia política.

 3) “Quem disse que os corpos nas imagens são de dois homens/duas mulheres?”.

Para esse argumento vale minha resposta anterior. Está na hora da militância feminista levar a sério contexto social e parar de fingir que vivemos no mundo pós-moderno queer, no qual todas as pessoas teriam o cuidado de se perguntar qual a identidade de gênero de cada um. A grande maioria das pessoas que olham aquelas imagens vão pensar que se trata de dois homens e duas mulheres, e achar que essas imagens – novamente: de plena concordância com imagens publicitárias pornográficas mainstream – vão abalar em algo o binarismo de gênero é, no mínimo, de uma ingenuidade atroz.

 4) “O movimento LGBT não é tão respeitado na nossa cidade, é importante trazer essas pautas para o feminismo”; “Eu sou transfeminista, pois sou a favor de feminismo intersecional”; “Devemos ampliar as pautas do feminismo, para englobar outras lutas tão importantes quanto as nossas”.

Esse é outro ponto muito importante que necessita de uma longa discussão no feminismo do Brasil hoje. Por hora, me atenho ao seguinte: de fato, a noção de interseccionalidade trouxe contribuições fundamentais ao feminismo, ao apontar a necessidade de trazer à pauta outras opressões que se inter-relacionam com a opressão sofrida pela mulher por ser mulher, tais como classe socioeconômica, raça ou etnia, identidade de gênero e orientação sexual. Porém, na prática, na hora de determinar como e pelo que vamos lutar, devemos questionar: o que estamos fazendo concretamente é uma ampliação saudável do debate e da situação concreta da experiência que temos como mulheres e das nossas necessidades ou estamos, no fim das contas, caindo em um desmantelamento da nossa luta pela diluição da categoria política do feminismo? Em outras palavras: até que ponto é possível e porque seria desejável que o feminismo fosse a “mãe de todas as lutas” e tentasse englobar todas as opressões do mundo? Como lutar contra todas as opressões que existem, concretamente, em uma organização política real? Quais as consequências práticas de diluir a categoria política mulher, como faz a teoria queer e também o chamado transfeminismo, e abrir margem para que qualquer pessoa (incluindo pessoas que se dizem “não binárias” mas são lidas como homens pela sociedade) tenham voz dentro dos espaços de militância e possam protagonizar a luta feminista?

Há muito mais a ser dito e voltarei a tratar dessa questão, mas, por hora, convido as companheiras a refletirem seriamente sobre essas questões.

 Por fim, se alguém tiver interesse em textos que fazem uma crítica à Marcha das Vadias em geral, o que aliás me parece extremamente necessário, recomendo:

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/a-marcha-das-vadias-nao-e-solidaria/

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/razoes-pelas-quais-eu-nao-vou-na-marcha-das-vadias/