Carta aberta às Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador (e uma reflexão sobre os rumos de certa militância feminista no Brasil)

 Pensei bem antes de escrever esse texto, pela dificuldade que seria transmitir em palavras o tom certo do que pretendo expressar. Mas ao perceber o desconforto em tantas companheiras, percebi a necessidade e urgência desse esforço. Me movo aqui com profunda sororidade, mas sem abrir mão do senso crítico, ciente de que luta política, também no feminismo, deve-se fazer a partir do diálogo e do embate franco de ideias.

 Vou relatar fatos e apresentar imagens não com a intenção de deslegitimar essas organizações, mas de propor uma reflexão sobre os rumos de nossa militância, com uma aposta ao mesmo tempo esperançosa e incrédula de que desta vez não serei silenciada.

 Esse texto parte de um desconforto gerado pela publicidade feita nas Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador, e também algumas consequências que tiveram. Como sempre, essa publicidade é também um reflexo da militância que está sendo feita e é principalmente isso que me interessa aqui.

 A marcha de Curitiba apresentou duas imagens que causaram polêmica. Na primeira, duas figuras que na nossa sociedade são lidas como figuras masculinas, em corpos padronizados de acordo com a noção de beleza imposta pela mídia, aparecem em um ato de caráter sexual com a frase: “oCUpe na Marcha das Vadias”. Em outro, duas figuras lidas como mulheres, de corpos também padronizados, em posição sexual.

 marcha curitiba

 Eu acompanhei e participei da discussão que houve na página do facebook da Marcha, onde as imagens foram divulgadas. As críticas que surgiram, de feministas de diferentes correntes, poderiam ser resumidas do seguinte modo: 1) o que a imagem das figuras masculinas tem a ver com uma Marcha que se pretende feminista? Desde quando a pauta da homossexualidade masculina (ou de pessoas lidas e identificadas como homens) é prioridade para o movimento feminista? Considerando que o movimento LGBT – conhecido por muitos militantes como GGGG, devido ao domínio do protagonismo dos homens gays – já tem seus próprios espaços de militância, qual a necessidade (e quais as consequências) de também dentro do movimento feminista trazer essas pautas como prioritárias? 2) várias mulheres lésbicas foram à página dizer que estavam muito desconfortáveis com a imagem das figuras femininas, que na leitura delas em nada se diferenciava da representação desrespeitosa de fetichização e objetificação da sexualidade lesbiana, tão comuns na publicidade e na mídia. 3) devido a ambas imagens, surgiu o questionamento: o quão revolucionário é representar corpos padronizados, em posições sexuais, em uma sociedade hipersexualidade e objetificadora como a nossa, dominada por imagens pornográficas que são produzidas por homens? Em uma marcha que surgiu devido à violência sexual contra a mulher e à culpabilização da vítima, quais as consequências de transformar a ideia de liberdade sexual, deturpada pela cultura da pornografia e padronização de corpos, como o centro do debate?

 marchacuritiba

 Eu não estaria escrevendo esse texto se, diante de diversas críticas respeitosas, todos os comentários críticos não tivessem sido apagados, com a justificativa de que alguns (pouquíssimos) eram violentos. Também não estaria escrevendo se, diante da evidente postura de silenciamento (uma das moderadoras da página ironizou dizendo “que ia apagar comentários sim, e se alguém reclamar ia apagar mais”), em vez de fazer uma nota de retratação, a organização fez uma nota de “esclarecimento” (ainda disponível no facebook), na qual não responde a muitas das críticas feitas e não assume a responsabilidade pelo silenciamento praticado em um espaço no qual se espera abertura ao diálogo.

 Com isso, vamos para a imagem publicitária da Marcha das Vadias de Salvador. Nela, a foto de uma moça trans*, segurando uma faca e uma chave de fenda, é acompanhada dos dizeres: “combate a cis+sexismos, por todos os meios necessários”. Aqui eu peço honestidade, pois sem isso nem vale a pena começar o debate: qualquer pessoa que acompanha a militância feminista feita hoje na internet (e, cada vez mais, também fora dela), assim como qualquer pessoa que acompanhou as entrelinhas da polêmica na Marcha das Vadias de Curitiba, sabe que hoje se desenrola uma “guerra” entre as feministas radicais e as pessoas transfeministas/transativistas. Dado esse contexto de tensão entre essas duas correntes com visões antagônicas sobre gênero e prática política, várias feministas, que declaradamente não aceitam a noção de “cis” (sobre algumas razões para isso, leia aqui), afirmaram estar desconfortáveis com a imagem, pois parecia ser uma ameaça também a mulheres, afinal, dentro dessa noção de cissexismo, tanto homens como mulheres “cis” são opressores em potencial de pessoas trans*. Nesse sentido, acredito que seria uma ingenuidade muito grande dizer que essa imagem, com esses dizeres, não seria dirigida também a mulheres “cis”. E, ainda que a intenção não fosse essa, o contexto deixa claro que há motivos para muitas mulheres se sentirem atacadas e ameaçadas por essa imagem.

marcha salvadorr

 Não pretendo me ater a detalhes dos argumentos que surgiram, não gosto de ativismo pautado em ataque pessoal, prints e exposição de cunho personalista. Mas propondo uma reflexão mais ampla sobre as consequências que esse tipo de militância tem na prática, gostaria de apresentar aqui alguns contrapontos e como eu entendo a ideologia por trás da argumentação típica desse tipo de ativismo.

 1) “É importante trazer a pauta da liberdade sexual para a Marcha das vadias!”.

Esse é um ponto extremamente complicado da militância feminista, que precisaria ser explorado mais amplamente. Mas resumindo ao máximo: sem dúvida a questão da liberdade sexual e autonomia sobre o próprio corpo é uma pauta feminista importantíssima. Porém, o que vemos hoje é uma confusão, gerada a partir da noção de “liberdade” de acordo com ideias liberais, que não permite diferenciar entre liberdade sexual e mera repetição de objetificação do corpo e da sexualidade de mulheres. Como coloquei acima, não há nada de revolucionário em exercer e defender uma sexualidade nos exatos moldes impostos pelo patriarcado, em pleno acordo com a milionária indústria pornográfica e publicitária.

Cada vez mais, o feminismo tem sido levado a confundir libertação sexual com hipersexualização da mulher, sem perceber a ligação direta entre essa objeficação dos nossos corpos e a violência sexual patriarcal. Ao mesmo tempo, quem ousa questionar essa tendência, é taxada de “moralista”, “assexuada” ou “intransigente”, como se não fosse permitido pensar criticamente quando se trata do âmbito das escolhas pessoais. O antídoto para essa falácia liberal as feministas radicais já nos ensinaram há tempos: o pessoal é político. Para quem tem interesse no assunto, recomendo fortemente a leitura:   http://www.catarticos.com.br/doce/liberacao-sexual-vs-novas-formas-de-dominacao/

 2) “Mas eu sou lésbica e não me senti ofendida com a imagem”; “Mas eu sou cis, reconheço meus privilégios e não me senti ameaçada com a imagem”.

Todas as afirmações desse tipo têm algo em comum: novamente a ideologia liberal de que somos meros indivíduos fazendo escolhas e que, se alguma pessoa gosta de alguma coisa ou não se sente ofendida por aquela coisa, esse é argumento suficiente para justificar aquela ação e encerrar o debate. Não por coincidência, isso me lembra muito o que dizem os homens que insistem em “mexer” com as mulheres na rua, pois “tem mulher que gosta”.

Está mais do que na hora de perceber que, sobretudo quando se trata de política, uma imagem ou uma estratégia de militância não é uma mera questão pessoal que deve me agradar ou contemplar enquanto indivíduo, mas sim deve levar em conta estruturas sociais amplas, incluindo quem eu pretendo representar como categoria ou classe e a quem meu discurso se dirige, e como esse público alvo pode receber minha ação, assim como outros setores da sociedade, com vistas a pensar nas consequências da estratégia política.

 3) “Quem disse que os corpos nas imagens são de dois homens/duas mulheres?”.

Para esse argumento vale minha resposta anterior. Está na hora da militância feminista levar a sério contexto social e parar de fingir que vivemos no mundo pós-moderno queer, no qual todas as pessoas teriam o cuidado de se perguntar qual a identidade de gênero de cada um. A grande maioria das pessoas que olham aquelas imagens vão pensar que se trata de dois homens e duas mulheres, e achar que essas imagens – novamente: de plena concordância com imagens publicitárias pornográficas mainstream – vão abalar em algo o binarismo de gênero é, no mínimo, de uma ingenuidade atroz.

 4) “O movimento LGBT não é tão respeitado na nossa cidade, é importante trazer essas pautas para o feminismo”; “Eu sou transfeminista, pois sou a favor de feminismo intersecional”; “Devemos ampliar as pautas do feminismo, para englobar outras lutas tão importantes quanto as nossas”.

Esse é outro ponto muito importante que necessita de uma longa discussão no feminismo do Brasil hoje. Por hora, me atenho ao seguinte: de fato, a noção de interseccionalidade trouxe contribuições fundamentais ao feminismo, ao apontar a necessidade de trazer à pauta outras opressões que se inter-relacionam com a opressão sofrida pela mulher por ser mulher, tais como classe socioeconômica, raça ou etnia, identidade de gênero e orientação sexual. Porém, na prática, na hora de determinar como e pelo que vamos lutar, devemos questionar: o que estamos fazendo concretamente é uma ampliação saudável do debate e da situação concreta da experiência que temos como mulheres e das nossas necessidades ou estamos, no fim das contas, caindo em um desmantelamento da nossa luta pela diluição da categoria política do feminismo? Em outras palavras: até que ponto é possível e porque seria desejável que o feminismo fosse a “mãe de todas as lutas” e tentasse englobar todas as opressões do mundo? Como lutar contra todas as opressões que existem, concretamente, em uma organização política real? Quais as consequências práticas de diluir a categoria política mulher, como faz a teoria queer e também o chamado transfeminismo, e abrir margem para que qualquer pessoa (incluindo pessoas que se dizem “não binárias” mas são lidas como homens pela sociedade) tenham voz dentro dos espaços de militância e possam protagonizar a luta feminista?

Há muito mais a ser dito e voltarei a tratar dessa questão, mas, por hora, convido as companheiras a refletirem seriamente sobre essas questões.

 Por fim, se alguém tiver interesse em textos que fazem uma crítica à Marcha das Vadias em geral, o que aliás me parece extremamente necessário, recomendo:

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/a-marcha-das-vadias-nao-e-solidaria/

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/razoes-pelas-quais-eu-nao-vou-na-marcha-das-vadias/

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