A visão da mulher negra no feminismo

Ser negra e pobre é conhecer a face crua dos homens, uma face oculta a muitas mulheres, mas não a nós. Até as cantadas de rua sobre a gente são mais ultrajantes. A tentativa de nos prostituir já na infância é maior pois a negra é oficialmente a mulher feita para a objetificação sexual. Principalmente porque, por não sermos consideradas bonitas pela sociedade, a objetificação sexual é considerada uma cortesia. “Agradeça que ainda quero te comer”.
O menor salário do mundo é da mulher negra. 
As maiores vítimas de violência doméstica são as negras. 
As mulheres mais abandonadas após a gravidez são as negras. 
E os filhos mais abandonados por homens (brancos e negros ) são os de etnia negra. 
Nossos olhos são apurados, vemos o que as brancas e mulheres de classe média não veem. 
Quando entrei no feminismo liberal não me agradei com o discurso. Sabia que era soft, turvado pela visão da classe média. Fui expulsa de vários grupos e páginas por discordar de discursos que eu julgava não contemplar a realidade da maioria das mulheres no mundo, que são as marginalizadas. Não vi interesses profundos por mudanças. Vi muita colonização masculina e espaço para homens.
E quando eu achei que a negra seria prioridade, inventaram uma preocupação com machos que sofrem por não poderem ser vistos como mulheres. Como se ser vista como mulher fosse um privilégio. Vi os machos se dizendo lésbicos e xingando lésbicas que não queriam o pênis deles, os pênis lésbicos. A negra nunca foi prioridade, as mulheres da periferia nunca foram. 
E eu conheço esse discurso de “uma luta não anula a outra”, e não engulo ele pois sempre foi usado quando a classe média queria justificar todos os seus esforços e recursos voltados unicamente para os seus pets

Eu conheço esse discurso, eu conheço o descaso, eu conheço a face dos homens, a face dos seus homens. E se cada negra da periferia se inserisse na prática feminista, ela seria radical de cara. Porque a gente conhece essa face do homem que não ri pra gente, a face do desprezo e estupro. Desde criancinhas. 

Esse texto, no entanto, não tem como objetivo final atacar ou culpabilizar mulheres brancas pois eu sei que a nossa opressão começou muito antes do mercantilismo, muito antes do homem negro saber da existência do homem branco (ou da branca). E sei que a mesma opressão se dava sobre as brancas, as indígenas, as indianas, as orientais, as de outras etnias e tribos. É uma opressão antiga, que independe da existência do capitalismo, ou comunismo, que independe da existência do conceito de raça, ou da equidade racial. E é contra essa opressão que me manifesto, e por essa luta que me uno a todas as mulheres, pois sei que homem nenhum vai um dia me ver como igual, não importa se ele é da mesma classe, nacionalidade, gênero ou etnia que eu. A minha luta é contra a raíz das nossas opressões, a minha luta é contra o patriarcado. E minha meta é libertar as mulheres de todas as etnias, pois todas são cativas da misoginia, ainda que umas mais que as outras, e eu não tolero e não acho privilégio nem mesmo a mais leve das misoginias. 

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