Caroline Criado-Perez fala sobre Judith Butler: o que um falo tem a ver com isso?

Link original em inglês da autora Caroline Criado-Perez: http://www.newstatesman.com/voices/2014/05/caroline-criado-perez-judith-butler-whats-phallus-got-do-it


Traduzido por Fontes Feministas: https://www.facebook.com/fontesfeministas?fref=nf


” No final dos anos 80, surgiu uma nova teórica na cena. Ela se chamava Judith Butler, e revolucionou a teoria de gênero de forma tão fundamental que escrever um artigo sobre gênero no século 21 sem ao menos uma referência a ela é colocar a si mesma fora da inteligibilidade teórica.

O psicanalista francês Jacques Lacan uma vez disse que “a mulher não existe”. A mulher, ou como Lacan coloca em sua palestra “sobre a sexualidade feminina”, pode ser perdoada por desconfiar desta afirmação estranha, mas não se preocupe. É apenas uma afirmação simbólica, ela fala apenas sobre qual gênero pode ter significado na língua, Lacan nos assegura, antes de afirmar que “o órgão sexual da mulher não interessa”. Hmmm.

Os homens, no entanto, bem. O homem é diferente. “O homem não é nada além do significante”, Lacan proclama. Inspirado na famosa teoria de Freud, da “inveja do pênis”, Lacan nos diz que o “falo” é o significante. (Nota: o falo, não o pênis, ainda estamos no domínio do que é simbólico, apesar da estranha obsessão com órgãos sexuais, não se relaciona em nada com o domínio do físico. Vamos acompanhar, pessoal). E este falo, apesar de ser apenas simbólico e não se relacionar com o sexo em si, é intrinsecamente macho. Como resultado, uma mulher não pode dar significado. Ela não tem significado. Simbolicamente.

Como você pode imaginar, as feministas tiveram alguns problemas com esta teoria. Como reação à designação colonizadora de Freud, que chamou a sexualidade feminina de “o continente obscuro da psicologia” (ou seja, impossível de se conhecer, como a mulher de Lacan), Hélène Cixous, uma das mais proponentes da teoria da écriture féminine, propôs que as mulheres escrevessem livres das algemas dos significados definidos por machos, e tinha isso a dizer:
O continente obscuro nem é obscuro ou impossível de explorar – ele continua apenas inexplorado porque nos fizeram acreditar que era escuro demais para explorar. E por que os homens querem nos fazer acreditar que o que interessa para nós é o continente branco [masculino]…

O ponto dela era simples. Freud colocou os homens como o assunto eterno, sendo o ponto de vista deles o ponto de vista a ser considerado, quando afirmou que “através da história, pessoas quebraram a cabeça para desvendar a natureza misteriosa da feminilidade”. É preciso esclarecer que quando ele disse “pessoas”, ele queria dizer “homens”, já que “para todas vocês que são mulheres isto não se aplica: vocês são o problema”. Cixous virou esta alegação de cabeça para baixo. As mulheres são pessoas também, ela apontou radicalmente, e portanto não são impossíveis de se conhecer. Não nascemos de puro mistério. Ao contrário, era justamente pelo fato da psicologia ter sido escrita por homens, a partir de uma perspectiva masculina, que ela nunca teve interesse em considerar se existia uma alternativa, uma visão de mundo feminina, uma visão do mundo informada pelo fato de se estar ocupando a parte inferior da ordem social, e que as mulheres haviam sido retratadas como o Outro, impossível de conhecer. É devido a esta falha de imaginação que as mulheres ficaram posicionadas na literatura psicológica como se estivessem destinadas a nunca ser um sujeito, nunca capazes de significar nada. Apenas capaz de ter significado desde que não fosse a significante: o grande falo masculino.

Cixous disse, de forma radical, que não tinha que ser daquela forma. Afinal, como ela aponta, a tinta branca só é impossível de ler se estiver em papel branco. Então porque estamos inquestionavelmente criando uma estrutura, uma página, que silencia nossas vozes, que faz da nossa tinta invisível?

Cixous radicalmente rejeitou um acesso ao significado definido por homens, e foi seguida por Luce Irigary e esta escola francesa logo ganhou poder nos círculos teóricos anglo-americanos. Mas então, no final dos anos 80, surgiu uma nova teórica na cena. Ela se chamava Judith Butler, e revolucionou a teoria de gênero.

Talvez Butler seja mais conhecida por sua teoria sobre performatividade de gênero, ou seja, a ideia de que o gênero é criado a partir de repetidas performances de um estereótipo específico de gênero. Esta performatividade de gênero entrou no topo do meio teórico, e eu tenho meus problemas sobre como ela tem sido usada, ironicamente, para alegar que gênero é de alguma forma inato. Neste artigo, porém, gostaria de me concentrar na teoria de inteligibilidade de Butler, já que acredito que isso pode esclarecer como uma teoria que imagina-se que seja capaz de desestabilizar normas opressoras de gênero, tem sido na verdade usada para reforçá-las.

Em Gender Trouble, provavelmente seu trabalho mais famoso, Butler critica a “gramática recebida” como incapaz de contestar o gênero, já que o “gênero em si é naturalizado nas normas gramaticais”. Soa um pouco como Cixous. Vamos desafiar as estruturas patriarcais que transformam nossas vozes em inteligíveis. Vamos parar de aceitar cegamente a página branca que nos oferecem.

Quando li isso pela primeira vez, me lembrei do meu primeiro despertar feminista, quando lia Feminism and Linguistic Theory, de Deborah Cameron. Cameron mostou um estudo mostrando que quando as mulheres ouvem “homem” ou “ele”, referindo-se aos humanos em geral e não especificamente aos machos da espécie, ainda sim elas pensam em um homem. Isto se deu apesar dos argumentos dos puristas da gramática que alegavam que a gramática é meramente abstrata, sem qualquer ligação com a realidade do gênero social (lembra alguém cujo nome começa com L?). Foi um choque para mim, eu jamais tinha percebido isso, mas percebi que era exatamente o que eu fazia, o que tinha levado às palavras “advogado”, “médico”, “político” estarem sempre acompanhadas pelo gênero padrão, o masculino, e apareciam em minha cabeça como um homem. Meu mundo mental inteiro estava povoado de homens poderosos e bem-sucedidos – não era à toa que eu me sentia inadequada.

Butler vai ainda mais longe em Undoing Gender, escrevendo que “existem vantagens em continuar não inteligível, se a inteligibilidade é entendida como o que é produzido como consequência do reconhecimento, de acordo com as normas sociais prevalentes”. Até aí, muito animador. Como as teóricas francesas da écriture féminine, que propunham uma forma específica e feminina de escrever, que expressasse a perspectiva feminina, Butler diz que não devemos aceitar o significado definido pelo masculino. E se isso faz de nós inteligíveis – incapazes de significar – quem se importa? Nós nos compreendemos – e você pode fazer o esforço de ir além de sua perspectiva míope.

Tendo identificado este problema do significado definido pelo masculino, Butler receita uma solução muito surpreendente. Em Bodies That Matter, Butler diz que Lacan não tem o direito de presumir posse do falo e determinar seu significado. Em vez disso, ela diz, devemos quebrar, transformar esta alegação misógina do malo, insistindo na “possibilidade de transferência do falo”. E, como um coelho genderqueer que sai da cartola, nasce o “falo lésbico”. Este nascimento estranho é, como garante Butler, “compatível com o esquema de Lacan”.

Entendo o que Butler quer dizer, mas não consigo deixar de pensar que é algo meio… sem ambição. Por que, devemos perguntar, por que é tão importante estar de acordo com o esquema de Lacan, afinal? O que aconteceu com a noção radical de dizer para Freud que não, as “pessoas” não “estavam quebrando a cabeça para desvendar o mistério da feminilidade”. Os homens estavam, porque eles nunca acharam que valia a pena perguntar para nós. Nós não somos “o problema”, Freud, o problema é um esquema com definição e construção masculina, que concebe sexo e gênero puramente a partir da classe do sexo masculino, como se a perspectiva de quem é oprimido sequer existisse. Não quero me apropriar do falo, preferiria fazer como Irigay e me aliar ao “vazio”, o “espaço que é mais pesado que qualquer matéria”. Não sei porque devo aceitar que este esquema é tão rígido que tudo que posso fazer é subvertê-lo, eu prefiro destruí-lo.

O argumento direto contra isso, um que a própria Butler fosse propor, é que pedir a rejeição e não a apropriação do falo é “essencializar” papéis de gênero. Sobre as feministas francesas, Butler escreveu que o “modelo de cultura” delas não estava tão distante do modelo patriarcal, que assumia “a constância da diferença do sexo”. O que ela queria era uma “feminilidade” de “múltiplas possibilidades”. Esta frase foi tomada por todo um exército de feministas de terceira onda, e ela é extremamente atraente. Você não precisa ser a vítima que desmaia, incompetente e violável, que a sua cultura lhe diz que você é. Basta rejeitar isso e dizer que você pode ser tão boa quanto qualquer homem, significar tanto quanto qualquer homem. Você tem a mesmo acesso ao significado do falo que ele, e além disso, você está tornando-o menos heterossexual. Toma, patriarcado.

O problema desta solução superficialmente atrativa é que ela confunde o pessoal com o público. Só porque eu pessoalmente acredito, ou sei, que sou uma mulher forte e independente, com intelecto, que merece uma educação, uma voz pública e não merece ser estuprada ou morta, este conhecimento pessoal não muda a ordem global que diz o exato oposto. E isso importa, porque não estamos lidando apenas com abstrações intelectuais, mas uma ordem global na qual uma a cada três mulheres sofre violência nas mãos de um homem, 85.000 mulheres são estupradas a cada ano no Reino Unido, e duas por semana são assassinadas por seus parceiros. Não estou dizendo que Butler não reconhece isso, claro que ela reconhece, e trabalha fora da academia para combater esta realidade. Mas seu trabalho teórico não parece levar em conta a realidade do mundo no qual as mulheres vivem, e é mundo que entende a diferença entre os sexos como algo rígido. O fato de que a maioria das feministas entendem que este fenômeno ocorre culturalmente, e não biologicamente, não faz dele menos real para as mulheres que não têm acesso à educação, não podem ter voz na ordem global, que são estupradas, que são mortas.

Aceitar isso e construir uma teoria feminista que leva em conta esta realidade não é a mesma coisa que dizer que esta realidade é imutável. É simplesmente dizer que esta é a nossa realidade, aqui e agora, e temos que reconhecê-la para poder resolvê-la. Fingir que a realidade é o que a gente gostaria que fosse não vai mudar nada. No máximo, vai fazer uma mulher se sentir mais poderosa. Mas não vai fazer nada pelas mulheres enquanto classe. E um feminismo que vale a pena não pode ser sobre fazer com que mulheres individuais se sintam melhor consigo mesmas – o feminismo não pode se reduzir à terapia individual. O feminismo precisa ser sobre alterar uma estrutura social que coloca as mulheres em uma posição inferior. Isto irá permitir que a feminilidade tenha “múltiplas possibilidades”. Parafraseando e brilhante Audre Lorde, subverter as ferramentas do mestre não é o suficiente. “

Anúncios

Uma resposta em “Caroline Criado-Perez fala sobre Judith Butler: o que um falo tem a ver com isso?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s