Carta aberta a Mayra

Mayra,

fiquei de te enviar uma lista de atitudes misóginas de transativistas. Mas, primeiro, em virtude desta ser uma carta aberta e de vivermos numa sociedade patriarcal onde o senso comum de que a mulher é o ser humano feminino, inerentemente feminino, preciso fazer, pela milésima vez,  algumas considerações teóricas do feminismo. E aqui, nesta carta, feminismo é a vertente que chamam de radical e faço isso porque eu julgo fundamental, inexorável, que feminismo seja uma luta exclusiva de mulheres por mulheres. Algumas pessoas entendem isso, mas a maioria não. E não as julgo já que também um dia já fui assim. E parecer arrogante é inevitável já que o cenário atual é de preconceito com as radfems, e preconceito é algo que as pessoas precisam mudar a partir delas. Se romper com o preconceito fosse tão fácil assim por parte de quem sofre, bastando se explicar, o mundo seria melhor. Mas a realidade é que as pessoas tapam os ouvidos e olhos quando querem manter seus preconceitos.

E claro que o que eu disse acima será transferido para mim como se eu fosse preconceituosa com defensores da teoria queer. Eu sou tão preconceituosa quanto sou com os cristãos, pois já fui cristã, já amei demais o deus cristão, defendi a ideologia cristã e já li a bíblia 1,5 vezes. Não é sempre que faço isso, mas critico o que conheço e entendo quando critico ambas ideologias, religiosas e trans/queer.

Eu, particularmente, divido o ser humano em duas características, a materialidade biológica e a materialidade cultural. E, sendo mais pragmática, corpo e mente. Ambos são mutáveis? Sim, claro. E até um influencia o outro, de certa forma. Uma pessoa que perdeu uma perna acaba mudando seu modo de pensar a partir dessa vivência. Uma mulher feminista acaba mudando coisas no seu corpo também, desfazendo construções culturais. Até o jeito de andar dela pode mudar porque sua mente mudou. Para o feminismo, no que concerne às questões entre os dois sexos, macho e fêmea, ambos são da mesma espécie, e ambos têm idêntica capacidade intelectual, e as diferenças corpóreas (que são distintas, óbvio, mas nem sempre isso é lembrado) não mudam tão significativamente a forma de pensar de ambos os sexos. E todas essas explicações midiáticas sobre os estereótipos de gêneros apenas reforçam o status quo machista para manter as mulheres conformadas com a sua construção social, que é uma construção de subordinação. E aqui começo a falar de gênero. Mas parece que até aqui você não é muito obtuso.

O conceito de gênero para o feminismo é análogo ao conceito das castas indianas. Ambos são um sistema de divisão de classes em função de características biológicas. Ambos os sistemas são impositivos e constroem o indivíduo para que desempenhem papéis de dominação e subordinação com base em ideologias de ódio e discriminação. No sistema de gênero, a mulher é reformada para se enquadrar no conceito patriarcal de mulher. E vou usar aqui a mesma palavra tanto para a mulher adulterada (a mulher do patriarcado) quanto para a mulher não adulterada (que raramente existe por causa da socialização já desde o nascimento). E não vejo nada de errado nisso ou confuso já que eu também poderia falar de mãe e da mãe do patriarcado, o que é ser mãe para a sociedade e etc.

O sexo biológico é imutável. Não dá para mudar de sexo, assim como não se muda de etnia. Por isso, transsexualidade não é possível. Silicone não são seios biológicos. Qualquer cavidade acima do períneo não é necessariamente uma vagina. E por aí vai. E não estou certa se já ficou claro que não existe mente de homem e mente de mulher. Tampouco alma de mulher e alma de homem. E sob essa perspectiva que o feminismo há décadas vem trabalhado. Porém, sofremos vários backlashes (ataques antifeministas) e reformulações da nossa teoria para não desagradar a classe dominante e que o feminismo denuncia como favorecido desse sistema de gênero, os homens. As teorias subversivas do feminismo foram reformadas, adulteradas e modificadas para se adaptar justamente às teorias machistas. E as teóricas que tanto estudaram com afinco as relações entre os sexos foram silenciadas, demonizadas como sapatões, feias, gordas e tudo que uma mulher não deve ser, além de esquecidas. Para mim, nada mais feminista que me apoiar em trabalhos de mulheres, principalmente no que concerne as questões feministas, claro. Mas por ser bem oposto ao que o patriarcado diz e sobre o que é ser mulher que essas feministas foram e são consideradas radicais (leia-se desnecessárias). Bem, eu não sou uma mulher branca da classe média, a qual eu considero a mais limitada sobre a condição da classe mulher. Não tenho síndrome de condomínio do patriarcado pois nasci e cresci numa favela e sou negra. Esse sistema me afetou muito e me prejudicou demais. E a única teoria que me contemplava enquanto negra periférica foi a chamada de radical (leia-se exagerada). A minha vivência estava ali descrita, e as soluções também. Não adianta reformar o patriarcado e se isolar numa bolha de alterações na própria mente fazendo meditação para acreditar que o machismo não te afeta. Não adianta tentar fazer mudanças individuais no estilo de vida até acreditar que o machismo da sociedade diminuiu pois você se isolou e não viu. Ou porque parou de se incomodar com as piadinhas sobre seu sexo. Não adianta passar a ver cantadas como elogio ou violência doméstica como ato passional, ápice da expressão de amor do macho sobre a mulher. Essas propostas liberais não mudam o sistema, e vai tudo a favor do que eu sempre fui contra, a postura da classe média sobre os problemas sociais.

Quanto aos transativistas… 

A história é longa, mas já há livros sobre um leque de atitudes de vocês como o Unpacking the queer politics da Sheila Jeffreys que deixo no meu drive e Gender Hurts da mesma. Mas eu ainda não cheguei a ler esses livros na íntegra. Eu nem precisei, eu vivenciei isso no feminismo.

Alguns poucos casos individuais:

  1. Samie vive falando que ser mãe é um privilégio e isso é demasiadamente ultrajante. Samie nunca pariu e nem vai parir, e Samie não faz nada diferente do que o sistema patriarcal, que é todo pautado em misoginia faz, dizer à mulher que encubar seres humanos, amamentá-los, se prender a eles por anos, interrompendo várias atividades centradas apenas em si mesma, é um privilégio. E as dores, cansaços e insatisfações devem ser silenciadas pois se você sente e admite que sente você não é uma mãe decente, assim como a mulher não adulterada não é uma mulher decente. Samie também disse, numa falsa simetria vergonhosa, que se os homens são considerados estupradores em potencial, as mulheres são infanticidas em potencial. Nada iuomizista para quem se considera mulher.
  2. Juno é de etnia nipônica, caucasiana, e se diz mulher trans (como se homens e mulheres fossem diferentes no pensar tal como o patriarcado sempre tentou reforçar), mas Juno não se satisfaz, Juno se diz mulher trans negra.
  3. Sofia, que tem uma página se autointitulando reflexiva, disse que queria rasgar o cu de uma menina de 13 anos já sabendo que ela era dessa idade. A mesma também expos uma mãe citando seu filho e pedindo o endereço da mesma em sua página com mais de 65 mil pessoas. Nesse mesmo post abriu-se portas para se incitar feminicídio à mesma por meio de atropelamento. Apenas brincadeira sobre violência contra a mulher? É o que o patriarcado diz.
  4. Jessica Sparks disse que acharia bom que radfems fossem estupradas. Que era contra o estupro de qualquer mulher, “até mesmo as cis”, mas radfems são uma classe de mulheres que merecem ser estupradas. Nunca vi radfem desejando estupro para mulheres trans. Mas, estupro é uma violência que os machos costumam banalizar. Nada novo.
  5. Beatriz Calore (risos)… É covardia eu citá-lo.
  6. Dorothy Lavigne (não tem graça a violência que esse macho já pratica há anos fora da internet)… É covardia eu citá-lo. A própria Daniela Andrade já disse que nem dá pra defender esse ser. Mas tanto o Calore quanto o Lavigne estão printados na Era de Xysperar.
  7. Hailey Kaiss, que reblogou um post cujo conteúdo discursivo (textual) tinha cunho pedófilo e em vez de assumir e se desculpar, nega o que fez e acusa quem pede explicações de transfóbica. Quando uma pessoa apoia pedofilia, ainda que tenha sido “sem querer querendo”, todas as vítimas de pedofilia perdem.
    Não contente, Hailey pisa nos sentimentos de vítimas de pedofilia. Ao ler uma mulher falando sobre sua vivência, disse “tadinha dessa transfóbica”. Que fique claro que não o estamos acusando de pedofilia, estamos apontando fatos. Seria leviano acusarmos quem quer que seja de pedofilia sem provas, afinal com acusações não se brinca. O que queremos? Apenas nos debruçar sobre fatos e problematizá-los sem esse gaslighting que faz de nós as verdadeiras bruxas que merecem a fogueira pública.
  8. Você achou bem diferente trocar a palavra esfaquear por matar. Nossa, Mayra, obrigada por não querer esfaquear uma mulher mas apenas matá-la por um elogio que não te agrada. Curioso que nunca quis matar uma mulher branca que tenha me feito um elogio racista. E aquela sua dica de como atrair as mulheres virando travesti me diz sobre você o que a teoria radical já prediz. Só que eu mal te conheço, imagine conhecendo.

Outros gerais:

  1. Não lembro o nome de todos, mas no grupo Siri Rycas, um grupo onde trans (que nasceram com penis, óbvio, por que citaríamos as que nasceram com vagina?) se socializam com as mulheres eu tive as experiências mais libertadoras da minha vida no feminismo. Não se podia falar em menstruação de forma confortável tal como nós mulheres já somos orientadas a não fazer perto de qualquer macho. Nada novo. E nem de gravidez, amamentação, etc. Útero também não é uma palavra boa em ser dita, mas somos todas mulheres, claro. Já piroca… Nossa, eu nunca entrei em grupos onde pirocas ficavam expostas por motivos de eu não ter interesse. Mas no Siris a pirocada rolava solta. E não importa se as lésbicas não gostam e até detestam. Nem se há mulheres ali que foram vítimas de estupro e aquilo seja gatilho para elas. E o mais interessante de tudo é que alguns nem lido como travestis ou mulheres trans eram. Eram lidos como homens héteros na boa. Mas se alguém contesta isso, transfobia. E claro que as mulheres e meninas ali, doutrinadas pela teoria queer que diz que se um homem se diz mulher só a palavra dele já basta, você deve vê-lo como mulher, colocavam as suas fotos de nudes. E claro que nada disso era porta para machos entrarem nos nossos espaços e terem acesso à nudez dessas mulheres. Lá também li dicas de como namorar meninas de 16 anos. Pouco diferente do que já vemos em ambientes com machos.
  2. Dizer que mulheres deveriam ser estupradas por não usarem o pronome exigido é comum no transativismo. Criar listas de mulheres a serem bloqueadas ou atacadas é comum no transativismo. Ter um front de mulheres atacando outras quando se dizem feministas é comum no transativismo. E claro que vão dizer que eu faço o mesmo com a mulheres trans. Mas eu não sou hipócrita, eu não considero mulher trans mulheres, mas homens. Estou sendo coerente com a minha luta. Se eu atacasse as mulheres pró-vida, ou antifeministas, já que considero elas mulheres, aí sim eu seria hipócrita e incoerente. Mas esse backlash dentro do feminismo tem origem do lado que concede espaço para o transativismo. E o transativismo é um movimento antifeminista, totalmente incompatível com o feminismo, diz o oposto do que o feminismo diz. E curiosamente é o único movimento no mundo onde o lado dito mulher não é silenciado pelo lado dito homem. Nem entre feministas e feministos isso acontece assim tão naturalmente. E nem pensem em citar o feminismo radical como silenciador de machos pois macho aqui não entra. E somos odiadas por isso. Por lutarmos por um espaço onde a filosofia da mulher, adulterada ou não, seja feita sem a intervenção dos machos.
  3. O termo cis é antifeminista pois parte da perspectiva de que a mulher escolheu o seu gênero, ou está conformada com o seu gênero, ou que tem o seu gênero inerente à sua natureza biológica, e não uma construção social como já foi exaustivamente explicado aqui. É um termo contramão do feminismo e que veio da teoria queer. O feminismo, novamente, defende que gênero é uma construção social com metas definidas de opressão via papéis sociais e dominação da mulher. Quando se diz que uma mulher é cis, se diz que ela é do jeito que é porque estava biologicamente destinada a ser, e isso é o oposto do que eu defendo.
  4. Eu, particularmente, tenho a infelicidade de ser hétero e estar presa numa síndrome de Estocolmo no que concerne à minha sexualidade. E sempre fui franca sobre minha atração sexual com os transgêneros. Não tem nada a ver com a aparência de vocês, mas com os órgãos sexuais e a sexualidade. Orientação sexual é pautada nisso, sempre foi, desde os tempos em que andávamos nus e homem e mulher eram bem parecidos nos rostos e feições. Nunca deixei de me interessar por um macho apenas porque ele está de vestido, ou batom ou escova progressiva. Me desinteressava caso soubesse que era gay pois gays não gostam de mulheres. O fato de um homem colocar silicones e ter a aparência da mulherdo patriarcado nunca foi empecilho para vedar minha atração sexual. E seu fosse apenas questão de aparência e se a genitália fosse coisa secundária nessa atração, eu me casaria com as minha melhores amigas pois sou apaixonada por elas há anos. Eu me relacionaria com lésbicas butchers. Bem, isso é considerado transfobia, ter aversão sexual por vagina quando se é mulher hétero e por pênis quando se é mulher lésbica. E, dentro do feminismo, quem mais tem sido acusada de transfobia por não querer se relacionar com mulheres trans ou homens que se dizem lésbicos são as lésbicas. E coerção para lésbicas chuparem piroca, terem contato com piroca ou serem penetradas por pirocas existe e a acusação é de transfobia quando elas se recusam. Isso é um tipo de estupro pois coage a pessoa a fazer determinada prática sexual que ela não deseja por culpabilização, chantagem emocional, dentre outros.
  5. A hipótese da pluralidade de gêneros (como se gênero fosse algo inato ao indivíduo) abre portas para que o opressor da mulher se esconda sob a autoidentificação de non-binárie ou mulher trans. Enquanto feminista, eu sei exatamente quem é beneficiado pelo patriarcado desde seu nascimento. E sei quem é considerado intelectualmente superior e quem tem o privilégio de silenciar quem em todos os espaços da sociedade (exceto dentro do feminismo chamado radical). Não importa para mim a autoidentificação do macho, se ele se acha não-opressor, a socialização dele conta e é uma vantagem perto da minha. A minha socialização é a minha opressão e ela não é reversível. Ela já me minou de várias formas e todos os espaços da sociedades estão socializados para me tratar como o segundo sexo. Não adianta eu me achar humana, achar que tenho uma relação horizontal com os machos, quando eu não tenho. Isso é ilusão, alienação da materialidade.
  6.   Por fim, entenda que discutimos aqui apenas uma arma do patriarcado, o sistema de gênero, este sistema de subordinação da fêmea humana. Enquanto o transativismo reforma o sistema aumentando o número de gênero, ignorando que este é um sistema de opressão, e fazendo com que mulheres deixem de se identificar como mulher acreditando que o feminismo nem é mais para ela ou que já não deve ser mais protagonistas, nós queremos abolição do gênero. Só há um gênero humano e enquanto a misoginia, o pavor da fêmea humana sendo ela mesma, existir, principalmente por parte do macho, mulheres continuarão sendo o segundo sexo. O sexo a ser prostituído, aliás. E sendo a construção social da mulher, a transformação dela em um produto frágil, dominável e facilmente estuprável, nada disso é garantia de fazer o patriarcado falir pois isto é apenas uma ferramente de um sistema anteriormente já existente. Eu inclusive acredito num tempo em que não havia diferença estética entre homens e mulheres, e a identificação dos sexos se dava instantaneamente pela nudez. E mesmo assim acredito que sofríamos tentativa de dominação de nossos corpos, dominação sexual. Então, é assim que eu já desisti dos machos, e isso inclui você, Mayra. Minha misandria se baseia em não confiar em vocês, não abrir porta para vocês e não fazer aliança com vocês. E a minha misandria nunca matou, agrediu ou estuprou nenhum macho, diferente da misoginia dos machos. E são os machos que violentam vocês, mas são mulheres que vocês estão demonizando na rede. Eu quero apenas manter espaços exclusivos dentro de um mundo dominado por machos, um mundo falocêntrico, onde a filosofia mais transgressora humana possa ser feita e evoluir, sem a insistência irritante de machos entrarem nela nem que seja colocando uma etiqueta contendo o nome dele como se ele fosse o foco (Male Exclusionary Radical Feminist, pleonasmo idiota mas bem sintomático). Não excluímos trans em nosso movimento, pois FtM têm voz e entrada nele. O feminismo radical naturalmente nos reforma e o amor entre as mulheres e por nós mesmas é um dessas consequências. Por isso o grupo mais odiado dentro do movimento mais odiado.
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Carta aberta às Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador (e uma reflexão sobre os rumos de certa militância feminista no Brasil)

 Pensei bem antes de escrever esse texto, pela dificuldade que seria transmitir em palavras o tom certo do que pretendo expressar. Mas ao perceber o desconforto em tantas companheiras, percebi a necessidade e urgência desse esforço. Me movo aqui com profunda sororidade, mas sem abrir mão do senso crítico, ciente de que luta política, também no feminismo, deve-se fazer a partir do diálogo e do embate franco de ideias.

 Vou relatar fatos e apresentar imagens não com a intenção de deslegitimar essas organizações, mas de propor uma reflexão sobre os rumos de nossa militância, com uma aposta ao mesmo tempo esperançosa e incrédula de que desta vez não serei silenciada.

 Esse texto parte de um desconforto gerado pela publicidade feita nas Marchas das Vadias de Curitiba e Salvador, e também algumas consequências que tiveram. Como sempre, essa publicidade é também um reflexo da militância que está sendo feita e é principalmente isso que me interessa aqui.

 A marcha de Curitiba apresentou duas imagens que causaram polêmica. Na primeira, duas figuras que na nossa sociedade são lidas como figuras masculinas, em corpos padronizados de acordo com a noção de beleza imposta pela mídia, aparecem em um ato de caráter sexual com a frase: “oCUpe na Marcha das Vadias”. Em outro, duas figuras lidas como mulheres, de corpos também padronizados, em posição sexual.

 marcha curitiba

 Eu acompanhei e participei da discussão que houve na página do facebook da Marcha, onde as imagens foram divulgadas. As críticas que surgiram, de feministas de diferentes correntes, poderiam ser resumidas do seguinte modo: 1) o que a imagem das figuras masculinas tem a ver com uma Marcha que se pretende feminista? Desde quando a pauta da homossexualidade masculina (ou de pessoas lidas e identificadas como homens) é prioridade para o movimento feminista? Considerando que o movimento LGBT – conhecido por muitos militantes como GGGG, devido ao domínio do protagonismo dos homens gays – já tem seus próprios espaços de militância, qual a necessidade (e quais as consequências) de também dentro do movimento feminista trazer essas pautas como prioritárias? 2) várias mulheres lésbicas foram à página dizer que estavam muito desconfortáveis com a imagem das figuras femininas, que na leitura delas em nada se diferenciava da representação desrespeitosa de fetichização e objetificação da sexualidade lesbiana, tão comuns na publicidade e na mídia. 3) devido a ambas imagens, surgiu o questionamento: o quão revolucionário é representar corpos padronizados, em posições sexuais, em uma sociedade hipersexualidade e objetificadora como a nossa, dominada por imagens pornográficas que são produzidas por homens? Em uma marcha que surgiu devido à violência sexual contra a mulher e à culpabilização da vítima, quais as consequências de transformar a ideia de liberdade sexual, deturpada pela cultura da pornografia e padronização de corpos, como o centro do debate?

 marchacuritiba

 Eu não estaria escrevendo esse texto se, diante de diversas críticas respeitosas, todos os comentários críticos não tivessem sido apagados, com a justificativa de que alguns (pouquíssimos) eram violentos. Também não estaria escrevendo se, diante da evidente postura de silenciamento (uma das moderadoras da página ironizou dizendo “que ia apagar comentários sim, e se alguém reclamar ia apagar mais”), em vez de fazer uma nota de retratação, a organização fez uma nota de “esclarecimento” (ainda disponível no facebook), na qual não responde a muitas das críticas feitas e não assume a responsabilidade pelo silenciamento praticado em um espaço no qual se espera abertura ao diálogo.

 Com isso, vamos para a imagem publicitária da Marcha das Vadias de Salvador. Nela, a foto de uma moça trans*, segurando uma faca e uma chave de fenda, é acompanhada dos dizeres: “combate a cis+sexismos, por todos os meios necessários”. Aqui eu peço honestidade, pois sem isso nem vale a pena começar o debate: qualquer pessoa que acompanha a militância feminista feita hoje na internet (e, cada vez mais, também fora dela), assim como qualquer pessoa que acompanhou as entrelinhas da polêmica na Marcha das Vadias de Curitiba, sabe que hoje se desenrola uma “guerra” entre as feministas radicais e as pessoas transfeministas/transativistas. Dado esse contexto de tensão entre essas duas correntes com visões antagônicas sobre gênero e prática política, várias feministas, que declaradamente não aceitam a noção de “cis” (sobre algumas razões para isso, leia aqui), afirmaram estar desconfortáveis com a imagem, pois parecia ser uma ameaça também a mulheres, afinal, dentro dessa noção de cissexismo, tanto homens como mulheres “cis” são opressores em potencial de pessoas trans*. Nesse sentido, acredito que seria uma ingenuidade muito grande dizer que essa imagem, com esses dizeres, não seria dirigida também a mulheres “cis”. E, ainda que a intenção não fosse essa, o contexto deixa claro que há motivos para muitas mulheres se sentirem atacadas e ameaçadas por essa imagem.

marcha salvadorr

 Não pretendo me ater a detalhes dos argumentos que surgiram, não gosto de ativismo pautado em ataque pessoal, prints e exposição de cunho personalista. Mas propondo uma reflexão mais ampla sobre as consequências que esse tipo de militância tem na prática, gostaria de apresentar aqui alguns contrapontos e como eu entendo a ideologia por trás da argumentação típica desse tipo de ativismo.

 1) “É importante trazer a pauta da liberdade sexual para a Marcha das vadias!”.

Esse é um ponto extremamente complicado da militância feminista, que precisaria ser explorado mais amplamente. Mas resumindo ao máximo: sem dúvida a questão da liberdade sexual e autonomia sobre o próprio corpo é uma pauta feminista importantíssima. Porém, o que vemos hoje é uma confusão, gerada a partir da noção de “liberdade” de acordo com ideias liberais, que não permite diferenciar entre liberdade sexual e mera repetição de objetificação do corpo e da sexualidade de mulheres. Como coloquei acima, não há nada de revolucionário em exercer e defender uma sexualidade nos exatos moldes impostos pelo patriarcado, em pleno acordo com a milionária indústria pornográfica e publicitária.

Cada vez mais, o feminismo tem sido levado a confundir libertação sexual com hipersexualização da mulher, sem perceber a ligação direta entre essa objeficação dos nossos corpos e a violência sexual patriarcal. Ao mesmo tempo, quem ousa questionar essa tendência, é taxada de “moralista”, “assexuada” ou “intransigente”, como se não fosse permitido pensar criticamente quando se trata do âmbito das escolhas pessoais. O antídoto para essa falácia liberal as feministas radicais já nos ensinaram há tempos: o pessoal é político. Para quem tem interesse no assunto, recomendo fortemente a leitura:   http://www.catarticos.com.br/doce/liberacao-sexual-vs-novas-formas-de-dominacao/

 2) “Mas eu sou lésbica e não me senti ofendida com a imagem”; “Mas eu sou cis, reconheço meus privilégios e não me senti ameaçada com a imagem”.

Todas as afirmações desse tipo têm algo em comum: novamente a ideologia liberal de que somos meros indivíduos fazendo escolhas e que, se alguma pessoa gosta de alguma coisa ou não se sente ofendida por aquela coisa, esse é argumento suficiente para justificar aquela ação e encerrar o debate. Não por coincidência, isso me lembra muito o que dizem os homens que insistem em “mexer” com as mulheres na rua, pois “tem mulher que gosta”.

Está mais do que na hora de perceber que, sobretudo quando se trata de política, uma imagem ou uma estratégia de militância não é uma mera questão pessoal que deve me agradar ou contemplar enquanto indivíduo, mas sim deve levar em conta estruturas sociais amplas, incluindo quem eu pretendo representar como categoria ou classe e a quem meu discurso se dirige, e como esse público alvo pode receber minha ação, assim como outros setores da sociedade, com vistas a pensar nas consequências da estratégia política.

 3) “Quem disse que os corpos nas imagens são de dois homens/duas mulheres?”.

Para esse argumento vale minha resposta anterior. Está na hora da militância feminista levar a sério contexto social e parar de fingir que vivemos no mundo pós-moderno queer, no qual todas as pessoas teriam o cuidado de se perguntar qual a identidade de gênero de cada um. A grande maioria das pessoas que olham aquelas imagens vão pensar que se trata de dois homens e duas mulheres, e achar que essas imagens – novamente: de plena concordância com imagens publicitárias pornográficas mainstream – vão abalar em algo o binarismo de gênero é, no mínimo, de uma ingenuidade atroz.

 4) “O movimento LGBT não é tão respeitado na nossa cidade, é importante trazer essas pautas para o feminismo”; “Eu sou transfeminista, pois sou a favor de feminismo intersecional”; “Devemos ampliar as pautas do feminismo, para englobar outras lutas tão importantes quanto as nossas”.

Esse é outro ponto muito importante que necessita de uma longa discussão no feminismo do Brasil hoje. Por hora, me atenho ao seguinte: de fato, a noção de interseccionalidade trouxe contribuições fundamentais ao feminismo, ao apontar a necessidade de trazer à pauta outras opressões que se inter-relacionam com a opressão sofrida pela mulher por ser mulher, tais como classe socioeconômica, raça ou etnia, identidade de gênero e orientação sexual. Porém, na prática, na hora de determinar como e pelo que vamos lutar, devemos questionar: o que estamos fazendo concretamente é uma ampliação saudável do debate e da situação concreta da experiência que temos como mulheres e das nossas necessidades ou estamos, no fim das contas, caindo em um desmantelamento da nossa luta pela diluição da categoria política do feminismo? Em outras palavras: até que ponto é possível e porque seria desejável que o feminismo fosse a “mãe de todas as lutas” e tentasse englobar todas as opressões do mundo? Como lutar contra todas as opressões que existem, concretamente, em uma organização política real? Quais as consequências práticas de diluir a categoria política mulher, como faz a teoria queer e também o chamado transfeminismo, e abrir margem para que qualquer pessoa (incluindo pessoas que se dizem “não binárias” mas são lidas como homens pela sociedade) tenham voz dentro dos espaços de militância e possam protagonizar a luta feminista?

Há muito mais a ser dito e voltarei a tratar dessa questão, mas, por hora, convido as companheiras a refletirem seriamente sobre essas questões.

 Por fim, se alguém tiver interesse em textos que fazem uma crítica à Marcha das Vadias em geral, o que aliás me parece extremamente necessário, recomendo:

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/a-marcha-das-vadias-nao-e-solidaria/

http://anarcopunk.org/acaoantisexista/uncategorized/razoes-pelas-quais-eu-nao-vou-na-marcha-das-vadias/