Caroline Criado-Perez fala sobre Judith Butler: o que um falo tem a ver com isso?

Link original em inglês da autora Caroline Criado-Perez: http://www.newstatesman.com/voices/2014/05/caroline-criado-perez-judith-butler-whats-phallus-got-do-it


Traduzido por Fontes Feministas: https://www.facebook.com/fontesfeministas?fref=nf


” No final dos anos 80, surgiu uma nova teórica na cena. Ela se chamava Judith Butler, e revolucionou a teoria de gênero de forma tão fundamental que escrever um artigo sobre gênero no século 21 sem ao menos uma referência a ela é colocar a si mesma fora da inteligibilidade teórica.

O psicanalista francês Jacques Lacan uma vez disse que “a mulher não existe”. A mulher, ou como Lacan coloca em sua palestra “sobre a sexualidade feminina”, pode ser perdoada por desconfiar desta afirmação estranha, mas não se preocupe. É apenas uma afirmação simbólica, ela fala apenas sobre qual gênero pode ter significado na língua, Lacan nos assegura, antes de afirmar que “o órgão sexual da mulher não interessa”. Hmmm.

Os homens, no entanto, bem. O homem é diferente. “O homem não é nada além do significante”, Lacan proclama. Inspirado na famosa teoria de Freud, da “inveja do pênis”, Lacan nos diz que o “falo” é o significante. (Nota: o falo, não o pênis, ainda estamos no domínio do que é simbólico, apesar da estranha obsessão com órgãos sexuais, não se relaciona em nada com o domínio do físico. Vamos acompanhar, pessoal). E este falo, apesar de ser apenas simbólico e não se relacionar com o sexo em si, é intrinsecamente macho. Como resultado, uma mulher não pode dar significado. Ela não tem significado. Simbolicamente.

Como você pode imaginar, as feministas tiveram alguns problemas com esta teoria. Como reação à designação colonizadora de Freud, que chamou a sexualidade feminina de “o continente obscuro da psicologia” (ou seja, impossível de se conhecer, como a mulher de Lacan), Hélène Cixous, uma das mais proponentes da teoria da écriture féminine, propôs que as mulheres escrevessem livres das algemas dos significados definidos por machos, e tinha isso a dizer:
O continente obscuro nem é obscuro ou impossível de explorar – ele continua apenas inexplorado porque nos fizeram acreditar que era escuro demais para explorar. E por que os homens querem nos fazer acreditar que o que interessa para nós é o continente branco [masculino]…

O ponto dela era simples. Freud colocou os homens como o assunto eterno, sendo o ponto de vista deles o ponto de vista a ser considerado, quando afirmou que “através da história, pessoas quebraram a cabeça para desvendar a natureza misteriosa da feminilidade”. É preciso esclarecer que quando ele disse “pessoas”, ele queria dizer “homens”, já que “para todas vocês que são mulheres isto não se aplica: vocês são o problema”. Cixous virou esta alegação de cabeça para baixo. As mulheres são pessoas também, ela apontou radicalmente, e portanto não são impossíveis de se conhecer. Não nascemos de puro mistério. Ao contrário, era justamente pelo fato da psicologia ter sido escrita por homens, a partir de uma perspectiva masculina, que ela nunca teve interesse em considerar se existia uma alternativa, uma visão de mundo feminina, uma visão do mundo informada pelo fato de se estar ocupando a parte inferior da ordem social, e que as mulheres haviam sido retratadas como o Outro, impossível de conhecer. É devido a esta falha de imaginação que as mulheres ficaram posicionadas na literatura psicológica como se estivessem destinadas a nunca ser um sujeito, nunca capazes de significar nada. Apenas capaz de ter significado desde que não fosse a significante: o grande falo masculino.

Cixous disse, de forma radical, que não tinha que ser daquela forma. Afinal, como ela aponta, a tinta branca só é impossível de ler se estiver em papel branco. Então porque estamos inquestionavelmente criando uma estrutura, uma página, que silencia nossas vozes, que faz da nossa tinta invisível?

Cixous radicalmente rejeitou um acesso ao significado definido por homens, e foi seguida por Luce Irigary e esta escola francesa logo ganhou poder nos círculos teóricos anglo-americanos. Mas então, no final dos anos 80, surgiu uma nova teórica na cena. Ela se chamava Judith Butler, e revolucionou a teoria de gênero.

Talvez Butler seja mais conhecida por sua teoria sobre performatividade de gênero, ou seja, a ideia de que o gênero é criado a partir de repetidas performances de um estereótipo específico de gênero. Esta performatividade de gênero entrou no topo do meio teórico, e eu tenho meus problemas sobre como ela tem sido usada, ironicamente, para alegar que gênero é de alguma forma inato. Neste artigo, porém, gostaria de me concentrar na teoria de inteligibilidade de Butler, já que acredito que isso pode esclarecer como uma teoria que imagina-se que seja capaz de desestabilizar normas opressoras de gênero, tem sido na verdade usada para reforçá-las.

Em Gender Trouble, provavelmente seu trabalho mais famoso, Butler critica a “gramática recebida” como incapaz de contestar o gênero, já que o “gênero em si é naturalizado nas normas gramaticais”. Soa um pouco como Cixous. Vamos desafiar as estruturas patriarcais que transformam nossas vozes em inteligíveis. Vamos parar de aceitar cegamente a página branca que nos oferecem.

Quando li isso pela primeira vez, me lembrei do meu primeiro despertar feminista, quando lia Feminism and Linguistic Theory, de Deborah Cameron. Cameron mostou um estudo mostrando que quando as mulheres ouvem “homem” ou “ele”, referindo-se aos humanos em geral e não especificamente aos machos da espécie, ainda sim elas pensam em um homem. Isto se deu apesar dos argumentos dos puristas da gramática que alegavam que a gramática é meramente abstrata, sem qualquer ligação com a realidade do gênero social (lembra alguém cujo nome começa com L?). Foi um choque para mim, eu jamais tinha percebido isso, mas percebi que era exatamente o que eu fazia, o que tinha levado às palavras “advogado”, “médico”, “político” estarem sempre acompanhadas pelo gênero padrão, o masculino, e apareciam em minha cabeça como um homem. Meu mundo mental inteiro estava povoado de homens poderosos e bem-sucedidos – não era à toa que eu me sentia inadequada.

Butler vai ainda mais longe em Undoing Gender, escrevendo que “existem vantagens em continuar não inteligível, se a inteligibilidade é entendida como o que é produzido como consequência do reconhecimento, de acordo com as normas sociais prevalentes”. Até aí, muito animador. Como as teóricas francesas da écriture féminine, que propunham uma forma específica e feminina de escrever, que expressasse a perspectiva feminina, Butler diz que não devemos aceitar o significado definido pelo masculino. E se isso faz de nós inteligíveis – incapazes de significar – quem se importa? Nós nos compreendemos – e você pode fazer o esforço de ir além de sua perspectiva míope.

Tendo identificado este problema do significado definido pelo masculino, Butler receita uma solução muito surpreendente. Em Bodies That Matter, Butler diz que Lacan não tem o direito de presumir posse do falo e determinar seu significado. Em vez disso, ela diz, devemos quebrar, transformar esta alegação misógina do malo, insistindo na “possibilidade de transferência do falo”. E, como um coelho genderqueer que sai da cartola, nasce o “falo lésbico”. Este nascimento estranho é, como garante Butler, “compatível com o esquema de Lacan”.

Entendo o que Butler quer dizer, mas não consigo deixar de pensar que é algo meio… sem ambição. Por que, devemos perguntar, por que é tão importante estar de acordo com o esquema de Lacan, afinal? O que aconteceu com a noção radical de dizer para Freud que não, as “pessoas” não “estavam quebrando a cabeça para desvendar o mistério da feminilidade”. Os homens estavam, porque eles nunca acharam que valia a pena perguntar para nós. Nós não somos “o problema”, Freud, o problema é um esquema com definição e construção masculina, que concebe sexo e gênero puramente a partir da classe do sexo masculino, como se a perspectiva de quem é oprimido sequer existisse. Não quero me apropriar do falo, preferiria fazer como Irigay e me aliar ao “vazio”, o “espaço que é mais pesado que qualquer matéria”. Não sei porque devo aceitar que este esquema é tão rígido que tudo que posso fazer é subvertê-lo, eu prefiro destruí-lo.

O argumento direto contra isso, um que a própria Butler fosse propor, é que pedir a rejeição e não a apropriação do falo é “essencializar” papéis de gênero. Sobre as feministas francesas, Butler escreveu que o “modelo de cultura” delas não estava tão distante do modelo patriarcal, que assumia “a constância da diferença do sexo”. O que ela queria era uma “feminilidade” de “múltiplas possibilidades”. Esta frase foi tomada por todo um exército de feministas de terceira onda, e ela é extremamente atraente. Você não precisa ser a vítima que desmaia, incompetente e violável, que a sua cultura lhe diz que você é. Basta rejeitar isso e dizer que você pode ser tão boa quanto qualquer homem, significar tanto quanto qualquer homem. Você tem a mesmo acesso ao significado do falo que ele, e além disso, você está tornando-o menos heterossexual. Toma, patriarcado.

O problema desta solução superficialmente atrativa é que ela confunde o pessoal com o público. Só porque eu pessoalmente acredito, ou sei, que sou uma mulher forte e independente, com intelecto, que merece uma educação, uma voz pública e não merece ser estuprada ou morta, este conhecimento pessoal não muda a ordem global que diz o exato oposto. E isso importa, porque não estamos lidando apenas com abstrações intelectuais, mas uma ordem global na qual uma a cada três mulheres sofre violência nas mãos de um homem, 85.000 mulheres são estupradas a cada ano no Reino Unido, e duas por semana são assassinadas por seus parceiros. Não estou dizendo que Butler não reconhece isso, claro que ela reconhece, e trabalha fora da academia para combater esta realidade. Mas seu trabalho teórico não parece levar em conta a realidade do mundo no qual as mulheres vivem, e é mundo que entende a diferença entre os sexos como algo rígido. O fato de que a maioria das feministas entendem que este fenômeno ocorre culturalmente, e não biologicamente, não faz dele menos real para as mulheres que não têm acesso à educação, não podem ter voz na ordem global, que são estupradas, que são mortas.

Aceitar isso e construir uma teoria feminista que leva em conta esta realidade não é a mesma coisa que dizer que esta realidade é imutável. É simplesmente dizer que esta é a nossa realidade, aqui e agora, e temos que reconhecê-la para poder resolvê-la. Fingir que a realidade é o que a gente gostaria que fosse não vai mudar nada. No máximo, vai fazer uma mulher se sentir mais poderosa. Mas não vai fazer nada pelas mulheres enquanto classe. E um feminismo que vale a pena não pode ser sobre fazer com que mulheres individuais se sintam melhor consigo mesmas – o feminismo não pode se reduzir à terapia individual. O feminismo precisa ser sobre alterar uma estrutura social que coloca as mulheres em uma posição inferior. Isto irá permitir que a feminilidade tenha “múltiplas possibilidades”. Parafraseando e brilhante Audre Lorde, subverter as ferramentas do mestre não é o suficiente. “

Por que me tornei feminista

Não sou uma teórica feminista, sou alguém que se tornou feminista pra poder sobreviver. Feminismo pra mim é um modo de vida, foi o que me libertou da vontade de ser qualquer outra coisa, menos eu. Mas demorei muito tempo até conseguir chamar isso de feminismo, por muitas razões. Então o que vou contar aqui é também parte da minha história. Há muitas coisas que gostaria de falar para outras mulheres, na esperança de ajudar alguém como eu fui ajudada.

Às vezes parece que estamos sozinhas e estas coisas só acontecem conosco, mas muito do que passamos é compartilhado.

Acredito que o receio que muitas mulheres têm de se dizer feministas, é também o receio de reconhecer que suas vidas não são assim tão únicas quanto imaginam. Que somos, na verdade, seres moldados para a feminilidade e que esta feminilidade é uma forma de prisão. E é claro que a prisão mais eficaz será aquela que as pessoas prisioneiras puderem pensar que gostam, ou que escolheram.

Há algo que constantemente me pergunto: como fazer as mulheres perceberem que nosso problema não é individual, que nosso sofrimento não é algo meramente pessoal que poderia ser resolvido “no íntimo”?

Conversando com uma amiga, que não entendia porque ainda precisamos de feminismo, apesar de todos os índices de violência contra a mulher e desigualdade de gênero, ela me questionou: mas por que você se tornou feminista?

A resposta a fez perceber que embora eu estivesse falando de mim e das minhas experiências, talvez ela também pudesse se dizer feminista, pois a despeito de todas a nossas diferenças compartilhamos desse mesmo sentimento profundo de inadequação em relação à nossa própria identidade “feminina”.

Então, minhas irmãs, eu vou falar de mim. Mas não se surpreendam se isso as recordar algo, e doer em vocês como dói em mim.

Me tornei feminista porque cresci ouvindo para me comportar como uma mocinha, para sentar de pernas fechadas, para comer de boca fechada, para ficar de boca fechada.

Me tornei feminista porque fui ensinada que todas as brincadeiras divertidas dos meninos seriam para mim perigosas. Por até hoje só saber subir em árvore de maneira desajeitada. Por ter tido todo meu corpo moldado e condicionado aos movimentos comedidos do espaço privado.

Me tornei feminista por andar de cabeça baixa, por ter aprendido a ter medo, por não poder ficar até tarde na rua. Por saber que nenhum espaço seria seguro para mim, pela anatomia do meu corpo ser a anatomia do corpo violável e não do corpo de viola e violenta.

Me tornei feminista pelos abusos que sofri, facilitados pela educação de silêncio, culpa e domesticidade, e assim silenciados toda uma vida junto com a inocência engolida com o bolo que eu ajudava a fazer e até hoje sei a receita.

Me tornei feminista por ter nojo da minha menstruação, do meu corpo, dos meus pelos. Por crescer sentindo que jamais seria bonita o suficiente, e sem isso, eu nada seria.

Me tornei feminista por ter sido educada desde a infância para amar um homem, desejar um homem, depender de um homem para ter minha identidade respeitada, para, finalmente, ser “a mulher de alguém”.

Me tornei feminista por perceber que quase todas as pessoas importantes – que aparecem nos livros e nos jornais, que escrevem os livros e jornais – são homens.

Me tornei feminista porque até deus é homem.

Me tornei feminista pelo sentimento ambíguo de medo, reverência e dependência a tudo que diz respeito ao masculino.

Me tornei feminista por achar que precisava desesperadamente conquistar um homem. Por mutilar meu corpo para isso, por aceitar novas regras dentro do meu mundo de regras.

Me tornei feminista por ter sido ensinada a odiar mulheres, assim como os homens as odeiam, e a vê-las como minhas adversárias no objetivo de adentrar, ainda que subalterna, o mundo dos homens através do passaporte de ser mulher de um homem.

Me tornei feminista por todos os relacionamentos abusivos, pela imposição de um desejo que nunca foi meu. Para poder questionar que desejo é esse que me faz um ser inferior, submisso, subserviente. Que gozo é esse que me simboliza escrava e não deusa.

Me tornei feminista pelos olhos abertos no escuro e a dor no corpo.

Me tornei feminista pelo esforço não recompensado no trabalho. Pela gagueira com o público. Pelo nó na garganta em todas as reuniões a portas fechadas.

Me tornei feminista pelas doenças psicológicas que nenhum remédio curava.

Me tornei feminista pela humilhação de saber que as ruas não me pertencem, que meu corpo é público, é julgável, é tocável. Por saber que tenho que me esconder e, se isso não for o suficiente, tenho que correr. Mas, se isso tampouco for o suficiente, a culpa continua sendo minha.

Me tornei feminista porque os homens são ensinados a odiar mulheres.

Me tornei feminista porque os homens são ensinados a desejar mulheres obsessivamente e a detestar, dominar e corromper o objeto de sua obsessão sexual.

Me tornei feminista porque o feminino, no mundo dos homens, é a Mãe Natureza à disposição da destruição, do abuso, do desrespeito. O ser feito para ofertar terna e eternamente.

Me tornei feminista porque entre puta e santa, entre vadia e mãe, a escolha é entre duas prisões dependentes do masculino.

Me tornei feminista porque sempre fui apenas o outro daquele a quem é permitido ser.

Me tornei feminista porque dizem “nem todos os homens”, mas, sim, é o sofrimento de todas as mulheres.

Carta aberta a Mayra

Mayra,

fiquei de te enviar uma lista de atitudes misóginas de transativistas. Mas, primeiro, em virtude desta ser uma carta aberta e de vivermos numa sociedade patriarcal onde o senso comum de que a mulher é o ser humano feminino, inerentemente feminino, preciso fazer, pela milésima vez,  algumas considerações teóricas do feminismo. E aqui, nesta carta, feminismo é a vertente que chamam de radical e faço isso porque eu julgo fundamental, inexorável, que feminismo seja uma luta exclusiva de mulheres por mulheres. Algumas pessoas entendem isso, mas a maioria não. E não as julgo já que também um dia já fui assim. E parecer arrogante é inevitável já que o cenário atual é de preconceito com as radfems, e preconceito é algo que as pessoas precisam mudar a partir delas. Se romper com o preconceito fosse tão fácil assim por parte de quem sofre, bastando se explicar, o mundo seria melhor. Mas a realidade é que as pessoas tapam os ouvidos e olhos quando querem manter seus preconceitos.

E claro que o que eu disse acima será transferido para mim como se eu fosse preconceituosa com defensores da teoria queer. Eu sou tão preconceituosa quanto sou com os cristãos, pois já fui cristã, já amei demais o deus cristão, defendi a ideologia cristã e já li a bíblia 1,5 vezes. Não é sempre que faço isso, mas critico o que conheço e entendo quando critico ambas ideologias, religiosas e trans/queer.

Eu, particularmente, divido o ser humano em duas características, a materialidade biológica e a materialidade cultural. E, sendo mais pragmática, corpo e mente. Ambos são mutáveis? Sim, claro. E até um influencia o outro, de certa forma. Uma pessoa que perdeu uma perna acaba mudando seu modo de pensar a partir dessa vivência. Uma mulher feminista acaba mudando coisas no seu corpo também, desfazendo construções culturais. Até o jeito de andar dela pode mudar porque sua mente mudou. Para o feminismo, no que concerne às questões entre os dois sexos, macho e fêmea, ambos são da mesma espécie, e ambos têm idêntica capacidade intelectual, e as diferenças corpóreas (que são distintas, óbvio, mas nem sempre isso é lembrado) não mudam tão significativamente a forma de pensar de ambos os sexos. E todas essas explicações midiáticas sobre os estereótipos de gêneros apenas reforçam o status quo machista para manter as mulheres conformadas com a sua construção social, que é uma construção de subordinação. E aqui começo a falar de gênero. Mas parece que até aqui você não é muito obtuso.

O conceito de gênero para o feminismo é análogo ao conceito das castas indianas. Ambos são um sistema de divisão de classes em função de características biológicas. Ambos os sistemas são impositivos e constroem o indivíduo para que desempenhem papéis de dominação e subordinação com base em ideologias de ódio e discriminação. No sistema de gênero, a mulher é reformada para se enquadrar no conceito patriarcal de mulher. E vou usar aqui a mesma palavra tanto para a mulher adulterada (a mulher do patriarcado) quanto para a mulher não adulterada (que raramente existe por causa da socialização já desde o nascimento). E não vejo nada de errado nisso ou confuso já que eu também poderia falar de mãe e da mãe do patriarcado, o que é ser mãe para a sociedade e etc.

O sexo biológico é imutável. Não dá para mudar de sexo, assim como não se muda de etnia. Por isso, transsexualidade não é possível. Silicone não são seios biológicos. Qualquer cavidade acima do períneo não é necessariamente uma vagina. E por aí vai. E não estou certa se já ficou claro que não existe mente de homem e mente de mulher. Tampouco alma de mulher e alma de homem. E sob essa perspectiva que o feminismo há décadas vem trabalhado. Porém, sofremos vários backlashes (ataques antifeministas) e reformulações da nossa teoria para não desagradar a classe dominante e que o feminismo denuncia como favorecido desse sistema de gênero, os homens. As teorias subversivas do feminismo foram reformadas, adulteradas e modificadas para se adaptar justamente às teorias machistas. E as teóricas que tanto estudaram com afinco as relações entre os sexos foram silenciadas, demonizadas como sapatões, feias, gordas e tudo que uma mulher não deve ser, além de esquecidas. Para mim, nada mais feminista que me apoiar em trabalhos de mulheres, principalmente no que concerne as questões feministas, claro. Mas por ser bem oposto ao que o patriarcado diz e sobre o que é ser mulher que essas feministas foram e são consideradas radicais (leia-se desnecessárias). Bem, eu não sou uma mulher branca da classe média, a qual eu considero a mais limitada sobre a condição da classe mulher. Não tenho síndrome de condomínio do patriarcado pois nasci e cresci numa favela e sou negra. Esse sistema me afetou muito e me prejudicou demais. E a única teoria que me contemplava enquanto negra periférica foi a chamada de radical (leia-se exagerada). A minha vivência estava ali descrita, e as soluções também. Não adianta reformar o patriarcado e se isolar numa bolha de alterações na própria mente fazendo meditação para acreditar que o machismo não te afeta. Não adianta tentar fazer mudanças individuais no estilo de vida até acreditar que o machismo da sociedade diminuiu pois você se isolou e não viu. Ou porque parou de se incomodar com as piadinhas sobre seu sexo. Não adianta passar a ver cantadas como elogio ou violência doméstica como ato passional, ápice da expressão de amor do macho sobre a mulher. Essas propostas liberais não mudam o sistema, e vai tudo a favor do que eu sempre fui contra, a postura da classe média sobre os problemas sociais.

Quanto aos transativistas… 

A história é longa, mas já há livros sobre um leque de atitudes de vocês como o Unpacking the queer politics da Sheila Jeffreys que deixo no meu drive e Gender Hurts da mesma. Mas eu ainda não cheguei a ler esses livros na íntegra. Eu nem precisei, eu vivenciei isso no feminismo.

Alguns poucos casos individuais:

  1. Samie vive falando que ser mãe é um privilégio e isso é demasiadamente ultrajante. Samie nunca pariu e nem vai parir, e Samie não faz nada diferente do que o sistema patriarcal, que é todo pautado em misoginia faz, dizer à mulher que encubar seres humanos, amamentá-los, se prender a eles por anos, interrompendo várias atividades centradas apenas em si mesma, é um privilégio. E as dores, cansaços e insatisfações devem ser silenciadas pois se você sente e admite que sente você não é uma mãe decente, assim como a mulher não adulterada não é uma mulher decente. Samie também disse, numa falsa simetria vergonhosa, que se os homens são considerados estupradores em potencial, as mulheres são infanticidas em potencial. Nada iuomizista para quem se considera mulher.
  2. Juno é de etnia nipônica, caucasiana, e se diz mulher trans (como se homens e mulheres fossem diferentes no pensar tal como o patriarcado sempre tentou reforçar), mas Juno não se satisfaz, Juno se diz mulher trans negra.
  3. Sofia, que tem uma página se autointitulando reflexiva, disse que queria rasgar o cu de uma menina de 13 anos já sabendo que ela era dessa idade. A mesma também expos uma mãe citando seu filho e pedindo o endereço da mesma em sua página com mais de 65 mil pessoas. Nesse mesmo post abriu-se portas para se incitar feminicídio à mesma por meio de atropelamento. Apenas brincadeira sobre violência contra a mulher? É o que o patriarcado diz.
  4. Jessica Sparks disse que acharia bom que radfems fossem estupradas. Que era contra o estupro de qualquer mulher, “até mesmo as cis”, mas radfems são uma classe de mulheres que merecem ser estupradas. Nunca vi radfem desejando estupro para mulheres trans. Mas, estupro é uma violência que os machos costumam banalizar. Nada novo.
  5. Beatriz Calore (risos)… É covardia eu citá-lo.
  6. Dorothy Lavigne (não tem graça a violência que esse macho já pratica há anos fora da internet)… É covardia eu citá-lo. A própria Daniela Andrade já disse que nem dá pra defender esse ser. Mas tanto o Calore quanto o Lavigne estão printados na Era de Xysperar.
  7. Hailey Kaiss, que reblogou um post cujo conteúdo discursivo (textual) tinha cunho pedófilo e em vez de assumir e se desculpar, nega o que fez e acusa quem pede explicações de transfóbica. Quando uma pessoa apoia pedofilia, ainda que tenha sido “sem querer querendo”, todas as vítimas de pedofilia perdem.
    Não contente, Hailey pisa nos sentimentos de vítimas de pedofilia. Ao ler uma mulher falando sobre sua vivência, disse “tadinha dessa transfóbica”. Que fique claro que não o estamos acusando de pedofilia, estamos apontando fatos. Seria leviano acusarmos quem quer que seja de pedofilia sem provas, afinal com acusações não se brinca. O que queremos? Apenas nos debruçar sobre fatos e problematizá-los sem esse gaslighting que faz de nós as verdadeiras bruxas que merecem a fogueira pública.
  8. Você achou bem diferente trocar a palavra esfaquear por matar. Nossa, Mayra, obrigada por não querer esfaquear uma mulher mas apenas matá-la por um elogio que não te agrada. Curioso que nunca quis matar uma mulher branca que tenha me feito um elogio racista. E aquela sua dica de como atrair as mulheres virando travesti me diz sobre você o que a teoria radical já prediz. Só que eu mal te conheço, imagine conhecendo.

Outros gerais:

  1. Não lembro o nome de todos, mas no grupo Siri Rycas, um grupo onde trans (que nasceram com penis, óbvio, por que citaríamos as que nasceram com vagina?) se socializam com as mulheres eu tive as experiências mais libertadoras da minha vida no feminismo. Não se podia falar em menstruação de forma confortável tal como nós mulheres já somos orientadas a não fazer perto de qualquer macho. Nada novo. E nem de gravidez, amamentação, etc. Útero também não é uma palavra boa em ser dita, mas somos todas mulheres, claro. Já piroca… Nossa, eu nunca entrei em grupos onde pirocas ficavam expostas por motivos de eu não ter interesse. Mas no Siris a pirocada rolava solta. E não importa se as lésbicas não gostam e até detestam. Nem se há mulheres ali que foram vítimas de estupro e aquilo seja gatilho para elas. E o mais interessante de tudo é que alguns nem lido como travestis ou mulheres trans eram. Eram lidos como homens héteros na boa. Mas se alguém contesta isso, transfobia. E claro que as mulheres e meninas ali, doutrinadas pela teoria queer que diz que se um homem se diz mulher só a palavra dele já basta, você deve vê-lo como mulher, colocavam as suas fotos de nudes. E claro que nada disso era porta para machos entrarem nos nossos espaços e terem acesso à nudez dessas mulheres. Lá também li dicas de como namorar meninas de 16 anos. Pouco diferente do que já vemos em ambientes com machos.
  2. Dizer que mulheres deveriam ser estupradas por não usarem o pronome exigido é comum no transativismo. Criar listas de mulheres a serem bloqueadas ou atacadas é comum no transativismo. Ter um front de mulheres atacando outras quando se dizem feministas é comum no transativismo. E claro que vão dizer que eu faço o mesmo com a mulheres trans. Mas eu não sou hipócrita, eu não considero mulher trans mulheres, mas homens. Estou sendo coerente com a minha luta. Se eu atacasse as mulheres pró-vida, ou antifeministas, já que considero elas mulheres, aí sim eu seria hipócrita e incoerente. Mas esse backlash dentro do feminismo tem origem do lado que concede espaço para o transativismo. E o transativismo é um movimento antifeminista, totalmente incompatível com o feminismo, diz o oposto do que o feminismo diz. E curiosamente é o único movimento no mundo onde o lado dito mulher não é silenciado pelo lado dito homem. Nem entre feministas e feministos isso acontece assim tão naturalmente. E nem pensem em citar o feminismo radical como silenciador de machos pois macho aqui não entra. E somos odiadas por isso. Por lutarmos por um espaço onde a filosofia da mulher, adulterada ou não, seja feita sem a intervenção dos machos.
  3. O termo cis é antifeminista pois parte da perspectiva de que a mulher escolheu o seu gênero, ou está conformada com o seu gênero, ou que tem o seu gênero inerente à sua natureza biológica, e não uma construção social como já foi exaustivamente explicado aqui. É um termo contramão do feminismo e que veio da teoria queer. O feminismo, novamente, defende que gênero é uma construção social com metas definidas de opressão via papéis sociais e dominação da mulher. Quando se diz que uma mulher é cis, se diz que ela é do jeito que é porque estava biologicamente destinada a ser, e isso é o oposto do que eu defendo.
  4. Eu, particularmente, tenho a infelicidade de ser hétero e estar presa numa síndrome de Estocolmo no que concerne à minha sexualidade. E sempre fui franca sobre minha atração sexual com os transgêneros. Não tem nada a ver com a aparência de vocês, mas com os órgãos sexuais e a sexualidade. Orientação sexual é pautada nisso, sempre foi, desde os tempos em que andávamos nus e homem e mulher eram bem parecidos nos rostos e feições. Nunca deixei de me interessar por um macho apenas porque ele está de vestido, ou batom ou escova progressiva. Me desinteressava caso soubesse que era gay pois gays não gostam de mulheres. O fato de um homem colocar silicones e ter a aparência da mulherdo patriarcado nunca foi empecilho para vedar minha atração sexual. E seu fosse apenas questão de aparência e se a genitália fosse coisa secundária nessa atração, eu me casaria com as minha melhores amigas pois sou apaixonada por elas há anos. Eu me relacionaria com lésbicas butchers. Bem, isso é considerado transfobia, ter aversão sexual por vagina quando se é mulher hétero e por pênis quando se é mulher lésbica. E, dentro do feminismo, quem mais tem sido acusada de transfobia por não querer se relacionar com mulheres trans ou homens que se dizem lésbicos são as lésbicas. E coerção para lésbicas chuparem piroca, terem contato com piroca ou serem penetradas por pirocas existe e a acusação é de transfobia quando elas se recusam. Isso é um tipo de estupro pois coage a pessoa a fazer determinada prática sexual que ela não deseja por culpabilização, chantagem emocional, dentre outros.
  5. A hipótese da pluralidade de gêneros (como se gênero fosse algo inato ao indivíduo) abre portas para que o opressor da mulher se esconda sob a autoidentificação de non-binárie ou mulher trans. Enquanto feminista, eu sei exatamente quem é beneficiado pelo patriarcado desde seu nascimento. E sei quem é considerado intelectualmente superior e quem tem o privilégio de silenciar quem em todos os espaços da sociedade (exceto dentro do feminismo chamado radical). Não importa para mim a autoidentificação do macho, se ele se acha não-opressor, a socialização dele conta e é uma vantagem perto da minha. A minha socialização é a minha opressão e ela não é reversível. Ela já me minou de várias formas e todos os espaços da sociedades estão socializados para me tratar como o segundo sexo. Não adianta eu me achar humana, achar que tenho uma relação horizontal com os machos, quando eu não tenho. Isso é ilusão, alienação da materialidade.
  6.   Por fim, entenda que discutimos aqui apenas uma arma do patriarcado, o sistema de gênero, este sistema de subordinação da fêmea humana. Enquanto o transativismo reforma o sistema aumentando o número de gênero, ignorando que este é um sistema de opressão, e fazendo com que mulheres deixem de se identificar como mulher acreditando que o feminismo nem é mais para ela ou que já não deve ser mais protagonistas, nós queremos abolição do gênero. Só há um gênero humano e enquanto a misoginia, o pavor da fêmea humana sendo ela mesma, existir, principalmente por parte do macho, mulheres continuarão sendo o segundo sexo. O sexo a ser prostituído, aliás. E sendo a construção social da mulher, a transformação dela em um produto frágil, dominável e facilmente estuprável, nada disso é garantia de fazer o patriarcado falir pois isto é apenas uma ferramente de um sistema anteriormente já existente. Eu inclusive acredito num tempo em que não havia diferença estética entre homens e mulheres, e a identificação dos sexos se dava instantaneamente pela nudez. E mesmo assim acredito que sofríamos tentativa de dominação de nossos corpos, dominação sexual. Então, é assim que eu já desisti dos machos, e isso inclui você, Mayra. Minha misandria se baseia em não confiar em vocês, não abrir porta para vocês e não fazer aliança com vocês. E a minha misandria nunca matou, agrediu ou estuprou nenhum macho, diferente da misoginia dos machos. E são os machos que violentam vocês, mas são mulheres que vocês estão demonizando na rede. Eu quero apenas manter espaços exclusivos dentro de um mundo dominado por machos, um mundo falocêntrico, onde a filosofia mais transgressora humana possa ser feita e evoluir, sem a insistência irritante de machos entrarem nela nem que seja colocando uma etiqueta contendo o nome dele como se ele fosse o foco (Male Exclusionary Radical Feminist, pleonasmo idiota mas bem sintomático). Não excluímos trans em nosso movimento, pois FtM têm voz e entrada nele. O feminismo radical naturalmente nos reforma e o amor entre as mulheres e por nós mesmas é um dessas consequências. Por isso o grupo mais odiado dentro do movimento mais odiado.

Feminismo é sobre sair da zona de conforto (Guest Post)

Saiba por quê:

A partir da vivência, aprendi que minha vida não fazia sentido. Que era uma filha indesejada. Que a diferença biológica me inferiorizava. Que meu aparato intelectual era inferior. Que eu não passava de uma mentirosa, quando aprendi a mentir pra burlar a tortura psicológica pela qual passava (e que ainda me atormenta). Estudei em ambientes extremamente hostis pruma pessoa como eu que sempre mostrou não querer se adaptar, ainda que por pressão seguisse padrões (que me perseguem bem ou mal). O jogo do ego existe mesmo entre crianças pequenas, em disputas idiotas em que meninas aprendem a competir entre si e meninos aprendem a se sobrepor pela força física. Cheguei ao nível de achar que os homens estavam bem intencionados em acabar com o machismo. Crescer apanhando, metaforicamente ou não, deixa marcas. E o feminismo fala sobre essas marcas. Fala sobre você tocar nessas feridas. Todo o sofrimento de uma mulher, direta ou indiretamente, se relaciona com o machismo. Se minha vó espancou a vida inteira minha mãe, é porque o pai dela a maltratou muito. Se minha mãe me violentou psico ou fisicamente, é porque minha vó reproduziu essa violência, ao lado do marido, em seguida veio meu pai, que deu conta de dizer pra ela que a culpa era dela quando ficou grávida, quando o sexo é feito por duas pessoas. Porém, a culpa sempre cai sobre a vítima. Porque a vítima é a parte mais fraca da relação social. E o jeito que minha mãe recebeu a maternidade, que é uma das formas de dominação masculina, vem disso. E é um ciclo de agressões que mulheres aprendem. Mulheres não aprendem a se comportar de outra maneira, nem homens. Mulheres não sabem não ser violentas, muitas vezes, porque não aprenderam a se comportar de outra maneira. E o feminismo é sobre isso também. Aprendemos a colocar mulheres na boca dos leões em nome de aprovação masculina. Aprendemos a julgá-las através da circunscrição de suas sexualidades. Aprendemos que elas ocupam nossos lugares ao lado dos homens. Isso não é culpa nossa. Como para cada ação existe uma ação, quando agimos de forma violenta, somos repreendidas por isso. O que eu quero dizer é que a desunião das mulheres se dá por mágoa, se dá por não conseguir ultrapassar esses momentos traumáticos. Feminismo é sobre nós, sobre como nos tratamos, sobre o quanto conseguimos nos ver como uma classe unida, sobre o quanto conseguimos nos livrar dos julgamentos patriarcais. Sobre amar menos os homens, amar pouco, não amar. Amar o menos possível, e aprender a amar a nós mesmas e a nossas irmãs. É respeitar a lésbica, a gorda, e peluda. Não é dizer que o feminismo não estimula mulheres a serem lésbicas, gordas e peludas. Isso é dizer que concordamos com o padrão reducionista sobre nossos corpos. É questionar toda e qualquer relação patriarcal, refletir sobre heterossexualidade sim. Por isso feminismo é coisa séria. Feminismo é revolução, revolução é dolorido, envolve tocar nas feridas traumáticas. Aquele abuso sexual tácito que você naturalizou. Aquela forma violenta de se referir a alguma mulher pra agradar algum homem. A busca de uma mulher por aprovação numa sociedade que a odeia é sobre isso. Sobre deixarmos de achar que dependemos. Não somos dependentes. O opressor precisa de nós. Depende da opressão, do estupro, da guerra, do sistema monetário, pra continuar enquanto classe dominante. Por isso devemos nosso sangue às lésbicas, e às feministas lésbicas, em especial. Feminismo significa resistência, significa sim ir à raiz do problema. O status quo tem medo do extremismo. No entanto eu duvido que a Revolução Francesa tivesse acontecido caso ninguém não tivesse cortado a cabeça do rei, não tivesse provocado a revolta das massas, ainda que pra tirar proveito disso. Está na hora de enxergarmos que o rei está nu. Está mais do que na hora de pararmos de chamar Solanas de louca. Está na hora de revidar. Isso é sobre sangue, sobre lágrimas, sobre autoflagelação pra conseguir seguir em frente. Sobre pensamentos de suicídio, já que nenhum espaço é espaço para nós. É sobre ser extensão do corpo de outrem. Posse dele. É sobre deixar de ser coisa. Animalizadas, no sentido especista e doentio da coisa. No sentido cruel da coisa. É sobre deixar de dar pra macho de quatro achando que isso é emponderamento e liberdade. É sobre sair da zona de conforto. É sobre sentir vergonha de ser uma pessoa violenta com quem sofre dos mesmos males que você. É sobre amar as semelhantes. É sobre sentir vergonha sim. É sobre enfiar o dedo na podridão da misoginia internalizada. É sobre ver que homens infectam as criações dos filhos. Feminismo não é uma brincadeira. É uma autorreflexão profunda sobre si e sobre a estrutura. O quanto meu físico e meu psicológico não são resultado das vivências que a estrutura me impôs? Se eu não estivesse ali, estaria onde? Provavelmente embaixo de uma ponte sendo estuprada por mendigo, ou num tráfico infantil, ou num prostíbulo cheio de menores? Mutiladas, arrasadas. O radicalismo assusta, viver de extremos assusta. Não posso ver nada mais extremo do que a natureza do machismo. Dizer que ir à raiz disso, combater isso em todas as instâncias é extremismo chega a ser ofensivo. As estruturas sociais precisam mudar pra que não dependamos mais da autodestruição já que não aprendemos a viver de outra maneira senão destruídas. Sobre deixarmos de achar natural ser hostil. Aprendemos a ser hostis pra sobreviver. No entanto, o comportamento hostil com iguais deve terminar. E isso não é fácil, não estou dizendo que é. Isso é difícil pra cada uma de nós. A misoginia internalizada está em nós em diferentes níveis, de diferentes formas. Cada uma tem uma relação diferente com o machismo em níveis diferentes de consciência sobre síndrome de estocolmo. Se dar conta da coação tácita de uma relação patriarcal qualquer exige vontade de fazer a ferida putrefata sangrar.

“Eu tô muito triste porque me dei conta do tanto que fui violenta com pessoas que não tiveram culpa, sabe? De tudo o que eu vivi. Eu me tornei uma coisa muito violenta. E hostil. E tenho vergonha disso. E não tenho, sinto que não tenho com quem desabafar sobre isso. Porque é muito ruim você reproduzir violência contra quem não tem nada a ver com o seu sofrimento. E aí, você faz outras pessoas sofrerem porque você tá destruída. E logo você se torna uma pessoa dependente de destruição.”

“Marxismo ensina que exploração e degradação de alguma maneira produzem resistência e revolução. Veio sendo difícil responder por quê. O que viemos aprendendo da experiência das mulheres com a sexualidade é de que a exploração e degradação produzem grata cumplicidade no intercâmbio de sobrevivência. Elas produzem auto-abominação ao ponto da extinção do Eu [self], e é o respeito pelo Eu que faz a resistência concebível”
Catharine A. MacKinnon, Feminism Unmodified: Discourses on Life and Law

Texto de autoria de Mariana Ney Prado.

Individualismo

Acordei numa segunda num lugar chamado Capitalismo. 
Percebi que me exploravam, decidi ser muito rica e resolver a minha vida.

Acordei numa terça num lugar chamado Racismo.
Percebi que me destratavam, decidi ser branca e resolver a minha vida.

Acordei numa quarta num lugar chamado Padrão de Beleza. 
Percebi que nem me olhavam, decidi ser linda e resolver a minha vida.

Acordei numa quinta num lugar chamado Heterocentrismo.
Percebi que não gozava, decidi me assumir lésbica e resolver a minha vida.

Acordei numa sexta num lugar chamado Gênero. 
Percebi que me estupravam, decidi parecer homem e resolver a minha vida.

Acordei num sábado num lugar chamado Falocentrismo. 
Percebi que não tinha voz, decidi implantar um pênis e resolver a minha vida.

Foi só no domingo, após ainda ser silenciada e invisibilizada, que me revelaram enfim o nome daquele local. 
Rasguei todos meus livros políticos, peguei o meu machado e virei feminista radical.

Sobre Disparidade Salarial – Não é mero acaso.

Você já reparou que antes da inserção das mulheres no mercado de trabalho, homens pobres (nossos avós) conseguiam manter uma família de 8, 10, 12 filhos? E não era incomum os homens se darem ao luxo de manter duas famílias (sem que uma soubesse da outra, claro). Quando a mulher vai finalmente para o mercado de trabalho, para as universidades, se gradua e etc, os salários caem, mantendo, claro, os maiores salários e melhores cargos para os homens.
Nada disso é um mero acaso do capitalismo, mas mais uma forma ardilosa de manter as mulheres dependentes dos homens. Se a mulher tem poder aquisitivo, conforme a constituição prevê, para ter moradia, alimentação, saúde e lazer asseguradas, ela dificilmente vai buscar os homens, e consequentemente não vai se prender a crianças. Esta tática de disparidade salarial e inflação é chave para fazer as mulheres buscarem desesperadamente casamentos, o que as colocam em relacionamentos abusivos de forma cega. Claro que não é apenas isso, mas estes fatores políticos garantem que toda a cultura da profissão-esposa funcione.
Nada disso é mero acaso, mas há um agravante: nossa classe, com essa tática (disparidade salarial e inflação), acaba não sendo remunerada de nenhuma forma. Entenda que o trabalho doméstico é um trabalho chave para a economia. Ele sempre existiu e sempre foi importante como base da economia. A mulher continua sendo explorada em casa, trabalhando sozinha pelo homem e pelos filhos. E não é remunerada por isso. É um trabalho sem folga, sem férias. Até após a aposentadoria ele permanece e ela é uma eterna mucama da sociedade, criando inclusive os netos abandonados pelos seus genros. Sendo assim, a inserção do mercado de trabalho, uma importante luta feminista de empoderamento da mulher visando sua autonomia, foi usada a favor dos homens para alavancar a economia dos países sem que a mulher receba remuneração integral pela jornada dupla ou tripla.
Ela continua dependente de um amparo econômico para sair da casa de seus pais e continua precisando de uma vida a dois para sobreviver. Ela continua sendo explorada e sendo a base da economia. Ela continua sendo vista e responsabilizada pela sociedade, pela mídia (propagandas de limpeza são voltadas para mulheres) e pelo Estado pelo trabalho doméstico e cuidados com as crianças.
Nada disso é por acaso e tudo isso te mantém cativa, desesperada e sujeita a abusos e desprezo dos homens. 

A visão da mulher negra no feminismo

Ser negra e pobre é conhecer a face crua dos homens, uma face oculta a muitas mulheres, mas não a nós. Até as cantadas de rua sobre a gente são mais ultrajantes. A tentativa de nos prostituir já na infância é maior pois a negra é oficialmente a mulher feita para a objetificação sexual. Principalmente porque, por não sermos consideradas bonitas pela sociedade, a objetificação sexual é considerada uma cortesia. “Agradeça que ainda quero te comer”.
O menor salário do mundo é da mulher negra. 
As maiores vítimas de violência doméstica são as negras. 
As mulheres mais abandonadas após a gravidez são as negras. 
E os filhos mais abandonados por homens (brancos e negros ) são os de etnia negra. 
Nossos olhos são apurados, vemos o que as brancas e mulheres de classe média não veem. 
Quando entrei no feminismo liberal não me agradei com o discurso. Sabia que era soft, turvado pela visão da classe média. Fui expulsa de vários grupos e páginas por discordar de discursos que eu julgava não contemplar a realidade da maioria das mulheres no mundo, que são as marginalizadas. Não vi interesses profundos por mudanças. Vi muita colonização masculina e espaço para homens.
E quando eu achei que a negra seria prioridade, inventaram uma preocupação com machos que sofrem por não poderem ser vistos como mulheres. Como se ser vista como mulher fosse um privilégio. Vi os machos se dizendo lésbicos e xingando lésbicas que não queriam o pênis deles, os pênis lésbicos. A negra nunca foi prioridade, as mulheres da periferia nunca foram. 
E eu conheço esse discurso de “uma luta não anula a outra”, e não engulo ele pois sempre foi usado quando a classe média queria justificar todos os seus esforços e recursos voltados unicamente para os seus pets

Eu conheço esse discurso, eu conheço o descaso, eu conheço a face dos homens, a face dos seus homens. E se cada negra da periferia se inserisse na prática feminista, ela seria radical de cara. Porque a gente conhece essa face do homem que não ri pra gente, a face do desprezo e estupro. Desde criancinhas. 

Esse texto, no entanto, não tem como objetivo final atacar ou culpabilizar mulheres brancas pois eu sei que a nossa opressão começou muito antes do mercantilismo, muito antes do homem negro saber da existência do homem branco (ou da branca). E sei que a mesma opressão se dava sobre as brancas, as indígenas, as indianas, as orientais, as de outras etnias e tribos. É uma opressão antiga, que independe da existência do capitalismo, ou comunismo, que independe da existência do conceito de raça, ou da equidade racial. E é contra essa opressão que me manifesto, e por essa luta que me uno a todas as mulheres, pois sei que homem nenhum vai um dia me ver como igual, não importa se ele é da mesma classe, nacionalidade, gênero ou etnia que eu. A minha luta é contra a raíz das nossas opressões, a minha luta é contra o patriarcado. E minha meta é libertar as mulheres de todas as etnias, pois todas são cativas da misoginia, ainda que umas mais que as outras, e eu não tolero e não acho privilégio nem mesmo a mais leve das misoginias.